sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Rosário do Amor sem Fim

                                        
                                                                                                                                       
                                                                 


 “É preciso ter caos e frenesi dentro de si para dar à luz uma estrela bailarina”

F. Nietzsche.






Soneto I


Ao raiar de nosso encontro
Lembro rápido de uma cena
Cena curta, bem pequena,
Mas que se tornou canção.

Não sei nem como, morena
O que aconteceu comigo:
Olhar com olhar se afina?
Respostas não tenho não.

O sorriso que me deste
Deixou-me assim vagando,
Sem saber onde começa

A doçura dos teus olhos,
Sem pensar onde termina
A longa cauda do dragão.





Soneto II


A longa cauda do dragão
Serpenteia em minhas entranhas.
Bem mansas, as brisas brincam
Por lentas águas, morena...

Pequena, minha alma tisna
De azul o olho perfeito,
Reflexo sobre a janela,
Alvorada, e só canção.

A minha voz soa estranha,
Busca por ti, alfazema,
Margarida, flor d’água,

Mãos femininas no cio
Ao doce luar da manhã
Com estrelas de agapanto.





Soneto III


Com estrelas de agapanto,
Ergo, morena, meu canto
Até o fundo da mata
Em espada, rosa, alecrim.

Como dói a despedida,
Como urge o reencontro,
Cabelo, colo, pescoço,
Suave cheiro de jasmim.

Braços pra ti estendidos,
Longo aperto na partida,
Buscando, mesmo, o motivo...

Enquanto parto ao encontro
De uma dália de espanto,
Uma estrela bailarina!



 

Soneto IV
 

Uma estrela bailarina,
Sustenidos e bemóis,
Dançam com a lua fina
Em brilhante pas-de-deux!

A vida em clave de sol,
Mas não posso, morena,
Entreter as murmurantes
Águas límpidas de você.

Mistério! Teu olho inspira
Minha mais louca escuridão
Em pretumes de menina.

Mãos! Pra que quero ter mãos?
A não ser que para tê-las
Correndo por teus cabelos...



 

Soneto V



Correndo por teus cabelos
Feito áureos diademas
E frementes ao teu ouvido
Dedos, bocas e poemas

Em paixão desatinada.
Nunca fadados ao olvido,
Peles, pelos e um partido:
Sentido contra sentido.

Ah! Morena, dá-me tua mão,
Que de ti não tenho medo,
De mim sei que não tens pena!

Não sejas filha-de-maria.
Ao retirar tuas vestes
Brota e sangra a alegria.



 
Soneto VI
 

Brota e sangra a alegria
Em rochedos escarpados.
Doce, mansa lembrança:
Corpos suados, cansados.

Não, morena, não mais venhas
Acirrar a minha ânsia!
Um raio de sol feria
Entre as fímbrias da manhã.

Doce, ao dormir, teu sorriso
Eram lírios de esperança.
Cravos, faróis, pelicanos,

Tua voz, na manhã fria.
Toma, morena, sem  pressa,
Toma-me, a mim, te pertenço.


 



Soneto VII


Toma-me, a mim, te pertenço
Em cor, fúria e maresia.
Batem as asas ao vento
Com sombria companhia...

Balança ao ar um lenço
Em singela despedida.
Leva, morena, em teu seio
Meu coração peregrino.

Não! Não mais gritos, nem ais!
Não haja mácula na vela
Branca da partida, nem

Mesmo um suspiro comprido.
Olhemos a mesma estrela.
Meu coração é contigo.



Soneto VIII

Meu coração é contigo,
Em auroras de menino.
Piões e canções de roda,
Brinquedos e correria.

Vem comigo, vem, guria,
Roubei uma rosa pra ti.
Danço um tango, canto um hino,
Andaremos de mão dada.

Dada, ó morena, dada,
Linda e grande e desnuda.
Não mais fales, fica quieta.

Tempo grande, braço afim.
No lá fora, a rua é muda.
Eu quero o teu corpo pra mim.




 
Soneto IX

 
Eu quero o teu corpo pra mim
Em canduras de menina.
Com bordados no sutiã,
Pura alma feminina!

Salto dez, nariz pra cima,
E um sorriso bem maroto,
Pra deixar louca de feliz
Minha alma de garoto.

São só teus, morena, a lua
E o sol e os cataclismas,
As anêmonas e os vales,

O gado, o pasto e os açudes,
Das tiriricas os maços:
Parto cedo pros teus braços.



Soneto X



Parto cedo pros teus braços,
Quando canta o sabiá.
Bem encilhado o picaço,
Volto pro que me faz lembrar

E que insiste, morena,
Em te amar, e que se chama
Peito, alma, sofreguidão,
Sede, fome e coração.

Do animal não sei se afago
A crina, ou se em ti penso,
Pequena, e te puxo o rabo-

De-cavalo, de égua zaina,
Cavalgando redomona
Em minha alma com emoção.
 



Soneto XI


Em minha alma com emoção,
Refulgentes purpurinas.
Levas-me, morena, pela
Mão, com trejeitos e esmalte.

Tens estrelas sobre a pele,
E eu tenho, por minha parte,
Adagas presas na canção.
Na ponta dos pés combinas

Só tu, com teus negros olhos,
Que parte da minha arte
Te convém, na cama, à noite.

Vou solito ao cadafalso,
Sem ordem, e de bom grado,
Aceitar minha doce sina!



Soneto XII

 
Aceitar minha doce sina
Em cetins e aconchego
Era mais do que queria
Um experiente andarengo.

Ai, ai, ai! U’a perereca!
Corres pra mim toda nua.
O animal, por que o temes?
Se não tenho medo da tua...

Mas respeito o teu mistério.
Vem, morena, e reenceta
Altivez e magistério.

Calma, doce e recomposta,
Com os teus olhos me indicas
Prato novo, e a mesa posta.
 



Soneto XIII


Prato novo, e a mesa posta,
Em perfumes e aromas.
Clamor, tremor e arrebóis
E mais rufares de tambor!

É o que te custa o meu amor.
Delirantes, mas serenas
Mãos que te percorrem em flor,
Morena, e até a vasta

Amplidão da voz e do olhar
Só querem fixar o ardor.
Lembrar-me, só, não basta.

Uma alma com calma embarca.
Em alvíssaras de frescor
Deixo em ti a minha marca.
 



Soneto XIV


Deixo em ti a minha marca
E sobre tua pele um traço.
De alegria um chafariz,
De poemas uma arca.

Só te peço, menina, abre
Braços, pernas e alma bela,
Pra mim, com moreno jeito,
Move, princesa, a canela!

Meus pés vagaram o mundo
Andaram de antro em antro.
Quero, morena, um descanso

No entrevero do ancestral
Chamado que me fizeste
Ao raiar de nosso encontro!


Francisco Settineri

3 comentários:

Reflexo d'Alma disse...

Bem vindo!
Bela estreia!
Bjins entre sonhos e delírios

Baltazar Gonçalves, o Bill disse...

Seu blog nasce com fôlego, a estrada é longa e o caminho deserto... e o lobo mal está... bem dentro de nós! Parabéns!

Francisco Settineri disse...

Eu sei, Bill! E está babando pela Chapeuzinho... :)