sábado, 5 de novembro de 2011

Lavra



As auroras mansas trouxeram teus olhos, amada,
Resistir, quem há-de?

Morena, a vida é tão triste.
Eu só quero olhar o teu rosto
E não dizer mais nenhum verso.
Só quero abraçar teu corpo
Na demorada noite
E acordar de madrugada.

Fechar de novo os olhos
E correr a mão por teus cabelos
Na imensidão, na imensidão desse sonho que renasce.
E, no entanto, estou tão cansado...

A vida é tão triste, morena!
Mas nela a luz irrompeu por completo.
Na ternura das tuas mãos ela ainda pode ser.

E depois, o que seriam dos meus olhos
Sem poder te ver por inteiro?

Meus vulcões riscaram a noite em rios de fúrias alaranjadas
Que correram densas pelos montes.
Ficaram pedras, morena, ficaram lavas.
Na noite insone fundimos um corpo novo, em prata.
Corpo em que tu me lavras, e eu te cultivo.

Francisco Settineri.

Um comentário:

poemasemfoco disse...

Lindo! Os três últimos versos... sem palavras, poeta! Muito bom!