terça-feira, 31 de julho de 2012

Casa de Chá





Nanquim que delineia a face esconsa
Recebo o afago em brisas divertidas,
Vestida em seu quimono a pretendida,
Pressinto-a nesse véu que a têm inclusa...

No limbo de uma ordem que a conduza
E passe o tempo a incendiar a vida
Seu corpo, em sua forma convertida
Desdenha toda forma de recusa!

Aferro-me, voraz, a tuas madeixas,
Imploro-te, animal, teus seios lindos,
Tremores, hoje sei, foram infindos

Porém não ouço, enfim, nenhuma queixa:
Contigo os dias todos são bem-vindos,
Carícia audaz em cada mão de gueixa!



Francisco Settineri.

domingo, 29 de julho de 2012

Soneto do Feitiço



Se eu me detenho a te cantar em verso,
Fado cansado de uma longa vida,
É na esperança de ver bem cumprida
Toda a saudade que me pôs diverso...

Pois foi no altar em que me tens converso,
Vestal descalça, em ânsia desabrida,
Que me despiste, como na partida
E fomos do pudor a seu reverso...

Além de tudo, eu tomo toda em prenda
Moça distante que demais cobiço
E no arrebol, que é rico como a lenda

Desceu o sol, e junto com o sumiço
Mostraste a mim a pele envolta em renda,
Pensaras ser imune ao meu feitiço...


Francisco Settineri.

sábado, 28 de julho de 2012

Lua Carpideira



Eu tomo o rumo que teus lábios dizem
No sono manso que a tua pele indica
E o meu olhar pousado em ti mais fica
Na cisma do que mãos em sonho fazem...

Mas se a visão e os corpos nada temem
Do que o silente abraço forte implica
De nossas águas já transborda a bica
E o mais são toques, de carícias tremem!

Na madrugada eu te tomei sozinha
E desde então, morena, foste inteira;
Não fora a Lua triste, carpideira

Chorar a aura, mansa, que avizinha
Manhã em que não mais serás só minha
Singrada nessa vela derradeira!


Francisco Settineri.

domingo, 22 de julho de 2012

Soneto Esculpido



Nascida como dom desta seara
És bela como um dia ao sol nascente
Se hoje até o orvalho é indecente
É que ele não molhou a pele clara...

Nos mármores em que Claudel talhara
Pressinto o arrepio que tens em mente
E habito essa mansão impenitente
Dos sonhos em que te fizeste cara!

Eu guardo as ilusões que a noite tece
E os sóis dessa janela eram mais belos,
Imerso no teu canto que me aquece,

Em teus campos em flor, tão amarelos
Recito para ti versos em prece
E bebo a paz dourada em teus cabelos...


Francisco Settineri.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Retrato


Do eco do passado que arrefece
Restou como pingente um breve tema
Talvez não seja mais do que um poema
Bordada na retina a rica messe...

Perdida na lembrança, ao que parece
Marcada em minha voz na vez extrema
Talvez não seja mais do que um poema
No mundo tão tardio que já anoitece...

Se acaso eu tropeçasse sem aviso
Na sombra da ilusão da qual comparto
Um resto que deixaras no meu piso

A sombra de uma dor de que me farto,
Talvez eu vislumbrasse esse sorriso
Que arromba o coração e invade o quarto!


Francisco Settineri.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

estrela decadente



pobres são meus sonetos, versos mancos
disse um crítico tido por certeiro
não sei ainda como estou inteiro
ovos podres me atiram saltimbancos...
levo a vida aos trancos e solavancos
tenho saúde mas não o dinheiro
tenho tudo para ser um roqueiro
só faltam barriga e os cabelos brancos...
disse um crítico tido por certeiro
não sei ainda como estou inteiro


Francisco Settineri.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Soneto da Barca da Morte



Na vez de uma deriva ao sol poente,
Enlaço o que restou de uma loucura.
Memória que se torna ditadura
Que fez da vida um antro decadente!

O vento que me leva ao mar distante
É volta que não mais se afigura
E a barca que se vai numa tremura
Parou toda pra mim, por um instante...

Embarco, muito embora irresoluto
Na vela que uma vez se fez serena
E que ora farta cobre-se de luto

Por ver que não fugi da mesma cena:
Eu sei que às vezes náufrago reluto
Pra morto regressar rumo à Geena!


Francisco Settineri.

sábado, 14 de julho de 2012

Canção de Amiga






No dia em que se andar em destemor
Teremos pela frente a amizade,
Mas ambos assolados na vontade
Da luz que nua encanta o dissabor...


Vazio fica o meu mundo em luz e cor
Se a mão dos tempos férrea nos invade,
Sentidos que se calam em tempestade
Do peito de nós dois, causando dor.


Pra ti, amiga, eu canto e ergo a taça,
Enlaço com as mãos o corpo e a mente,
Não há na minha vida outro presente


E nem por certo um verso que eu não faça.
Eu quero que pra ti o sol renasça
Que a vida te abra os braços logo à frente!




Francisco Settineri.