sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

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ido





Francisco Settineri.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Taciturno




Olha. Mas olha intenso. E bem de frente.
Pois como se quisesses um devoto
Zelo atroz furioso a celebrar remoto
A alma toda, olha no presente...

Que não hesite trêmula e lamente
A mão em tola nostalgia e ex-voto
Daquilo que surgiu, tão grave e ignoto
Num leito plurialvo e penitente.

Fere o trovão a noite tenebrosa!
Que o cio feroz e o som retire o leme
Da barca que arriscou-se ao mar briosa

Na voz do vento o verso austero e estreme...
Que uive nas canções mais escabrosas
Roldão que nas galáxias treme e geme!


Francisco Settineri.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Aventurina



O poeta perde as contas nessas contas
Porque tontas já não podem se contar.
Desvairado, funde-as todas porque há tantas
Que se sabem esquecidas ao luar...

Mas ao mar hoje ele as joga todas juntas
E as perguntas que ele faz tão sem pensar
Jorram muitas nesta flâmula de letras
Que compõe, acerbamente, par em par!

Açoitado, que o poeta não tem cura,
Por espinhos que percorrem o poema
Ele busca no recorte a ventura

De volver antena à raça como tema:
No que vai ser lapidado na mais pura
Dimensão que verte ao ver-se como gema!


Francisco Settineri.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Febril



Quando a face que me encanta e que se alheia
Num olhar dissimulado e contrafeito
Traz consigo em seu sorriso o nó desfeito
Nela vejo em breve o ar de quem anseia...

E é assim que corre solto pela veia
O meu verso, muitas vezes no imperfeito,
Que eu não sei se é inocente ou se é suspeito
Mas que busca apanhar-te numa teia!

E a tormenta das tuas mãos, que acolhe o gesto
De tomar-te aos pés da escada, tão sem freio
Regurgita dos gemidos só um resto,

Ao deitar ao solo o corpo em que passeio:
Aninhada no meu colo, sem protesto,
Ao jogar-se à minha fome, sem receio!


Francisco Settineri.