domingo, 22 de dezembro de 2013

Canção de Amor para a Minha Noiva






Deslumbrado por teus votos de obediência,

que só hoje, agora ao cabo, tu me prometes,

quero agora deliciar-me nos banquetes

onde hei de amar-te sempre com ardência!



A saudade foi dobrada com paciência,

Mesmo a vida a nos cobrar os grandes fretes,

Ofereço a ti, formosa, os ramalhetes

Que uma história me embargou tão sem clemência...



Muito cedo, amor, a vida me segura

Com um eco que não cala após o vento,

Nem rescaldos já me restem de amargura...



E é por isso que agora toma assento,

Não sentir que a vida breve é o que não dura,

Mas que dura, enfim, é o puro sentimento!





Francisco Settineri.

Uma Vida só não Basta




Tanto céu em teu sorriso
Foi de me deixar contente
Ah! poeta imprudente...
que te olhou tão de improviso!

Pois chegaste sem aviso,
Tanta paz na minha frente!
E um brilhar de sol poente
que de um tom tão impreciso...

Eu me arroubo com essa casta
Avidez com que te chamo,
E por ti o peito alastra

Bem-querer que assim reclamo:
Uma vida só não basta
Pra te amar como eu te amo!


Francisco Settineri.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Adeus, Nelson Mandela






Adeus, velho camarada!


As portas do internacionalismo proletário


Estarão sempre abertas


De par em par


Para homens como tu.


Em ti a humanidade excedeu qualquer vaidade


Dessas que se nutrem os homens menores!


Mesmo nas lutas, teu coração sempre bateu sereno.


Sereno até no longo cárcere!

Nunca serás jogado ao olvido;


Hoje todos choram por ti


A começar pela Mamãe África!




Francisco Settineri.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Lira dos sessenta



Lábio murcho de saudade
Neste ano de conquista,
Tanto mar e terra à vista
Com sabor e sem maldade!

Verbo posto com vontade,
Eis passado em revista
Quando o verso já se alista,
Busca audaz, mas sem vaidade...

Quando vejo, o ocaso vai
E, solene, se apresenta
Mais depressa o olhar distrai

Numa calma que apascenta;
O outonal formoso cai,
Folhas soltas aos sessenta.


Francisco Settineri.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Proibida




Contemplo, extasiado e à distância
O fruto proibido que desejo
E gozo só nos sonhos do teu beijo
Em surto e solidão, tamanha ânsia!

Platônica paixão noutra província
Em que não ouso andar por puro pejo
Por mais que me arrebente o amor sobejo
Enquanto, da Igreja, a escada desce-a...

E mesmo que atrapalhe a calmaria
Nascido pra franzir o duro cenho,
Moslim que ama a filha-de-maria

É algo que esmorece o mero empenho;
No meio do alto voo a ventania,
Mantenho ao peito intacto o amor que tenho!


Francisco Settineri.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Angústia


(A Ângelo Luís)

Ah! Soberbo amigo audaz
que manca agora em montaria triste
e fora outrora rara e reluzente
me fazes ter a dor de ver-te ao dia
tão mudo que eu já quase te esquecia
carregas na memória o frio cárcere
perdeu-se em ti a paz que era risonha
e até do porco em quem botavas a peçonha
não lembras mais do mesmo jeito célere
o riso que era largo emudeceu em prisma
silêncio após silêncio de enforcado
espero enfim a ver se lhe remeto
de um jeito que pareça inconteste
o mudo afeto a ver se apazigua...

Francisco Settineri.

Caim



Por mais que sejam belos, mas sem brilho
Os olhos que à mi'a face tu endereças
No fundo vejo a nítida promessa
De ser lançado aos socos nalgum trilho

Por trás deste aspecto maltrapilho
Não há, no mundo, algo que te impeça
De achares que tu és mais, bacana à beça,
Nem Deus, nem pai, nem mãe, nem mesmo o filho!

Se alguma adaga oculta se enternece
E tem um tom solene que atravessa
Sorrindo, assim cortês, astuta fera

Já sabe que um irmão jamais esquece
O amor que não foi seu, por mais que peça
E tenha encanecido nessa espera!


Francisco Settineri.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

BALADA PARA EMILY



Bracinhos que se agitam pelo berço
E um choro que não passa indiferente,
Mas nada torna a noite descontente
Enquanto há pausa às armas com que terço.

Eu lembro ainda em sonho que era março
E o amor que se elevou era ofegante,
Pois nada em nosso leito era o bastante
Para abafar o grito que disfarço!

Pois Emily berrava pelas tetas
E a fome deu ao sono o seu adeus;
Mas lembro comovido das caretas

Que a mãe lhe sossegou nos braços seus,
Pois ouve enlevada as cançonetas
E olha-me como se eu fosse um deus!


Francisco Settineri.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Treva



Hoje eu juntarei toda a tristeza,
Lesto levarei à chuva fria
Torto o torso em tal melancolia
Que há, de espinho em riste, ter beleza!

Junto ao pensamento esta maleza,
Farta brotará à luz do dia
Finca-se no peito a tirania,
Juntos olvidados sonho e mesa!

E armam-se no céu em tom propício
Névoas que já escondem a Lua clara
Dor que eu vi em ti, e desde o início,

Lança que o passado prenunciara:
Vou na direção do precipício
Em que algum poeta já cantara!


Francisco Settineri.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Silenciosa




Ai, saudade azul!
Faz logo de mim um turbilhão
Que se congele longe em tua lembrança.

Dança, solidão, aos gritos
Pulos – Vai! Sim! Dança! -
Com grandeza feminina
E alegrias de criança...

Fala o grito vário em finos mostos,
Ferve em minhas veias, ao matá-las
Mas bem dentro de ti eu sei que calas!


Francisco Settineri.

domingo, 17 de novembro de 2013

Caso Encerrado



A poesia tem asco
do bolor ocioso
e o dito fraco
das toscas tralhas
é sempre a sensação que tu cativas
de vivaias vivas
lemas, lentes e limalhas


Francisco Settineri.

Náufragos



De águas tão revoltas de teus olhos
Saídas vaporosas das vertentes
Não há no céu estrelas que freqüentes
Que evitem os perigos dos abrolhos...

Fragata que se escapa ao que recolho
Do náufrago que jaz à minha frente
E o resto que flutua impertinente
Inútil traz no bojo o seu ferrolho!

Encontra-se a loucura dos teus fados
Na pérola perdida ao preamar
E assim veloz no barco naufragado

Em liras a sereia a solfejar
No mesmo andar audaz encapelado
Teu brilho azteca assim se faz brilhar!


Francisco Settineri.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Xadrez sem Estrelas



Cedo o medo sela a cela
onde a curta e parca mesa
já despreza o livro que ali jaz.
Onde não há luz, já não há paz.
Um olhar, um outro olhar,
e o par de lembranças a doçura do lar
a grade o almoço o espelho o jantar
a tristeza lenta te abocanha, meu amigo
bulício da vida no lá-fora que se põe distante
e inúteis pensamentos em sua apagada cor.
mas não há na alma cansada o ressentimento
nessa maldita praga do vai-não-vai
- em que pese a rude e amarga dor -
nem no rosto do teu pai.


Francisco Settineri.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Bálsamo




No albor dessa distância dos mares
Tão sensitivo, feito de esperança e a um tempo temor
O poeta augura o pó do caminho das estrelas
Via láctea como um leito linho esplendor
Que se demora austero como a passagem das horas.

Porque ninguém te amará como eu, sereno nas madrugadas frias
E ouvirá as sereias e cobiçará agarrar-se a teus cabelos
No desespero assombrado da noite grande e coalhada de orvalho

Teus olhos brilham como esferas líquidas e solitárias.
Elas nunca, nunca, cicatrizam,
Em seu negrume brilhante, armado de dor.

Mas minhas mãos, em teu silêncio, farão com que murchem os espinhos dos cardos
Que conheci bem antes de construirmos de mãos dadas o ansiado ninho.

E haverá aves tétricas gritando, tenebrosos pesadelos no mar,
Ilhas mortas de perigos horrendos e rochas sem vida
Até que venham nítidas e flamantes as cores da manhã.


Francisco Settineri

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Pandora





Pela amarga terra o deus mandou Pandora

Atroz castigo ao que o fogo lhe roubara

Ornada de flores que Eros talhara

Mais do que bela ao claro olhar da aurora...



Tecidos de seda que a mão pouco aflora

Que tudo aprendeu do que Atena ensinara

Ao fraco o presente radiante foi cara

E o mal que livrou expandiu mundo afora!





Mas Zeus não julgou o castigo bastante

Correntes na pedra furioso o prendeu

E antes do herói o salvar ao instante



O voo da águia constante o rendeu:

Faminta paciência no brilho cortante

Do ventre que abrira ao titã Prometeu!


Francisco Settineri.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

No teu silêncio, as luzes



Porque tão tarde, meu amor, bates à porta?
Que som sem eco paralisa ineptas as dores da alma?
Que mãos de fêmea fecham as janelas, na alegria farta?
Que som terá a voz nascente nos ouvidos, na falta?
O carinho é dádiva em um mundo sem dragões.
Vieram monstros, vieram soldados a me prender o corpo. 
Mas nada nesta praia me atira aos escolhos e ao campo das solidões
Porque tenho em mim tuas mãos, tua pele, o fruto, o carpo! 
E a lembrança lancinante das madrugadas primitivas e felizes...
E a cor de todas as primaveras, em seus cerúleos matizes 
Onde nenhuma dor a mais, por mais que fira, me alcança. 
Contigo, enfim, longe da lâmina, aguda, da lança!

Francisco Settineri.

domingo, 10 de novembro de 2013

Olhos Negros





O poeta lavra a letra, ardente herói

Afasta a lava que te corrói, fervente,

Repara, pois, com teu olho que não mente

O quanto o amor é doce e como dói.



Se versos tristes que te disse a bruma rói

Ela os mastiga calma com seu fero dente

Como viver e ter a dura vida à frente,

Se o soluço cresce e a vida se destrói!



Se a vida um dia te pareceu vazia

Afasto a lava que te corrói, fervente

Só quero a tua mão pura, que sente

O amor livre de tédio e de melancolia.


Francisco Settineri

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Um barco se aproxima em cais de pedra




Um barco se aproxima em cais de pedra
Convida a viajar ao Aqueronte
Gentil, cortês, conduz a nau Caronte
Em meio ao desespero que aqui medra.

Não sabes mais se a sombra que ora chega
É o nada a desfilar na tua frente
Da treva que te envolve o abraço quente,
Mortalha que te cai em tensa entrega!

Destino ao qual somente o herói escapa
No resgatar audaz do inferno a Dama
E o deus do mundo odiento a si reclama
A parte que lhe cabe, obscuro mapa...

E cais a delirar no humor sombrio
Das águas a vencer pelo barqueiro
E nada ao céu impede o ardor primeiro
Que firme impele ao vento o rosto frio!


Francisco Settineri.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Caverna


(a Ângelo Luís)


O olhar que engole as grades e parece
Não caber na fraca luz e a dura cama
Faz gelar o que é do sonho e escreve o drama,
Teoremas espectrais que a treva tece...

Pois de haver tão perto assim o que hoje cresce
Nos escárnios do trovão que se reclama
Dessa estaca pontiaguda, augusta flama
Nascerá no rosto a paz que se entristece...

No rigor da extensa ausência, na miséria
Que profere, dos recônditos da lama
A algemada solidão em sede inglória,

Mil volutas e protestos e proclamas:
O poeta come as pedras da vitória,
Noite longa sem ternura e amor sem dama!


Francisco Settineri.

sábado, 19 de outubro de 2013

Pacto



Um dia enfim a calma e a esperança

acharam de viver no mesmo teto,

a vida com outra vida assim se trança

e o filho engendra um filho e tenho um neto

que se fez esperar, ardor dileto

e alguém, além de mim, tem na lembrança!


Francisco Settineri.

sábado, 28 de setembro de 2013

A Morte do Poeta



Surgido em ti qual flor que me depara
Com tintas decididas do poente
O espectro então penetra o calmo dente
e livra do teu dorso aquela escara!

Alenta-se na mente o que lembrara
O encontro em destemor que esteve à frente
E o gesto que se foi e está dormente
Espalha a doce imagem que foi cara...

Na face a dor que mansa nos ensina
O fato de existir, raro portento
Da terra cuja espera já termina

Afasta da feição o parco augúrio:
No enlevo de abraçar que é firme e lento,
Da vida o ardor que acaba num murmúrio...


Francisco Settineri.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

metamorfose



a angústia me consome


avatar da morte incerta


carapaça e nó que aperta


o meu mundo que se some





Francisco Settineri.

sábado, 31 de agosto de 2013

Ofertório




Névoa que desfaz um tosco eu em cinzas,

Ao não ser então mais do que essa outra bruma

No discreto olhar que até que enfim se apruma

E volta invertido pela correnteza...



Plano que devolve o nada que desprezas,

Resto especular do nexo que se esfuma

Preso na ciranda ao deixar-se, em suma

Mal se abandonar à morte sem grandeza!



O calor de ontem hoje busca um norte

Que nos faça dois nas núpcias deste drama

E que lance as marcas de um abraço forte,



Sulco milenar em repetida trama:

Peso mineral que o horizonte entorte,

Vento sideral que lento se esparrama...



Francisco Settineri.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Réquiem



Cantar eu não quis mais em verso rude
A olhar com destemor, intacto e quedo
Recolho a brisa que corre em segredo
Disposta a desnudar qualquer virtude.

Contemplo as minhas mãos, para que mude
A espera que me toma desde cedo
E pus-me a deslizar, então sem medo
Por entre agudas pedras da inquietude...

Aferro-me a um sinal, que de saída
Furtava-se à noção e parecia
Desenterrar a dor mais desabrida

Vertido em tom de olhar que a luz copia,
De uma sombria tela, tosca e ida
Roubei a cor que não te pertencia...

Francisco Settineri.

domingo, 7 de julho de 2013

Sentinela



Imerso na neblina o vulto inquieto
Engasga na distância que o separa
Do gesto que se esvai, pétala rara
Sem escapar do inclemente veto.

Douradas as veredas no indiscreto
Tremor de uma palavra que era cara
Que o zelo esconso da memória avara
Insiste em apartar-se por completo.

Não fosse por um laço, amarelo
E mais eu não teria se não fosse
Um desatar de nós sem atropelo

Da noite em riso azul que assim tomou-se
No deliciar dos dedos no cabelo,
Passado a escorregar, que era tão doce...


Francisco Settineri.

sábado, 29 de junho de 2013

a



Saber teu rosto em paz há muito alegra
Aquele olhar antigo a ver ainda
Que a fonte enfim traz algo que não finda
Imerso nessa luz que desintegra...

E mesmo bem depois que a face negra
Alente-se na nova aurora vinda,
Ainda lembrarei, tristeza infinda
De tudo o que é perdido, como regra.

Mas nada a não ser canto a ti prometo
Pois sei do mundo por estreita senda.
Entrego as poucas linhas que cometo

E mais não sei fazer sob encomenda:
No mar do teu encanto eu me acometo
Avesso, o verso avista e o véu desvenda!


Francisco Settineri.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

torpe



choque copa choque
copa choque copa
copa perto choque
tropa porta copa
copa choque corpo
perto aperta tropa
pétreo apelo esperto
choque choque choque

Francisco Settineri

sábado, 8 de junho de 2013

Insensato



Reparo cada tom do teu retrato
E nada justifica essa demora
Pois que hoje a madrugada foi-se embora
E o tempo que passou agora é fato...

Porém, eu reconheço de imediato,
Vislumbre que me diz que já é hora
Pois vejo que uma vez mais se assenhora
Aquela que de mim fez insensato.

Ao dar-te ao coração delicadeza,
Assim um desafio a mais levanto
Que eu sei que não escapas da certeza

Pois giras na vertigem do meu canto
Que vai assinalar grande proeza,
Não houve outro poeta a te amar tanto!


Francisco Settineri.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Lúgubre



O que era belo hoje só causa medo
Que no teu canto preludiou o grito,
Partem-se crânios contra este rochedo
Pululam vermes em tremendo rito.

Movem-se ainda as mãos no arremedo
Do que da boca não vai mais ser dito,
Do vivo ao morto já não há segredo
Terror que espalha-se no céu aflito.

Essa lembrança em célere teatro
Num barco podre que afundou no cais
É o que me resta, mais sinistro e atro,

Horrenda chaga a esgravatar demais...
Então rastejo e vejo o magro espectro
Do velho corvo a repetir - Não mais!


Francisco Settineri.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Bem-te-vi



Previsível sem engano,
Corajoso ao exagero
Ele ensaia seu bolero
Do Rio Grande ao altiplano!

Com um quê de olhar humano
Ele vê o fervor sincero
Com que almeja o quero-quero,
Testemunha cada plano.

Porque acorda sempre cedo
Quando tudo o mais é mudo
Ele tem tanto segredo

A calar no céu, contudo:
Ao deixar todos com medo,
Bem-te-vi sabe de tudo...


Francisco Settineri.