sábado, 10 de maio de 2014

Coxas



Quando Deus inventou a mulher
inventou também a coxa.
Mas não a tirou de uma costela:
A coxa veio do nada,
Do Caos da era do Gênesis:
Deus criou a coxa,
E viu que era boa!

E a inventou em português,
antes que alguém a traduzisse
ao hebraico.
(Em que língua Deus falou com Adão?)
Nada mais heroicamente brasileiro
do que uma coxa.

Nada mais adolescente do que perscrutar escadas
Nada mais falsamente modesto do que a moça
puxar as saias, num gesto rápido
e envergonhado
para que elas não apareçam tanto.

Tento encontrar uma coisa que o prove
Mas mesmo que o decassílabo invada
A rara placidez do meu verso livre,
Volto a Deus, em sua obra, em sua ira.

Claro está que não as fez nas coxas
Teve um trabalho infernal
Para dotá-las de uma forma
e de um nome
Soletrado tantas vezes
por um Drummond encabulado.

Que deixe os jovens atormentados
E as moças cheias da certeza
de que mantém um segredo do Universo!
Coxas grossas, mãos macias e pitangas,
Meninos
Faceiros como lambaris na sanga!


Francisco Settineri.

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