segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Beijos



Sinto a falta do teus beijos doloridos
Que marcaram breve tempo a minha boca
Que a fizeram se espantar como uma louca
Tanto tempo após o tempo que foi ido!

E se agora ainda os tenho tão doídos
Foi por tê-los nessa ânsia tão barroca
Língua a língua, no fragor de intensa troca
Que se nunca se tomaram por vencidos!

Pois que agora têm em si sabor de ameixa
E a ternura que se faz tão sem demora
Nas doideiras que se têm sem tom de queixa

Que o falaz, em tom sombrio, as têm agora.
E a saudade, a loucura, não me deixa;
Cravo ao peito a lâmina que me devora!

Francisco Settineri.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Pudor



Um seco pranto ainda turva a vista,
Pois vindo da lembrança de uma luz
Que ainda toda a dor mesma me traz
Por ter deitado fora uma conquista...

Já tinha desta dor mais que uma pista
E sempre no meu sempre que ainda jaz
O brilho dos teus olhos sempre apraz,
Perdido nesta alma de um artista.

Pudor mais que ocultado no olho baço
Absconso o sentimento o que alegrou
Entorna-se na alma o que reinou,

Na vida não há nada que o garante.
Que o mundo decepou com o seu aço,
Escondo como posso o meu semblante!

Francisco Settineri.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Murmúrios azuis






Preciso de um silêncio azul que não me atordoe

E quero me ligar à paz que só a água propicia,

A me levar aos pássaros em seus pios que soem

Vamos a andar perdidos pela tarde boa

E o céu brilhante que me enche de energia

É de um silêncio azul que não me atordoa.



Podemos circular por essa vida à toa,

Porque os maçaricos me enchem de alegria,

Leva-me a ver os pássaros à beira da lagoa!



Desejo a companhia que nada me apregoa,

Que em nada se assemelhe a uma tirania

Preciso de um silêncio azul que não me atordoe!



Eu quero um horizonte e uma fonte boa,

Mais tarde ouvir o canto de toda a saparia,

Me leva a ver os pássaros à beira da lagoa.



Assim, amor, nos pássaros que revoam a canoa

Em que não pousamos as mãos cansadas,

Preciso de um silêncio azul que não me atordoe,

Me leva a ver os pássaros à beira da lagoa...





Francisco Settineri.

Lembrança



Mágoa que atordoa na vida sem vaidade,
Tu foste a luz serena que não tenho mais
Vingadas as invejas que tiraram a paz,
Já ida no passado a doce mocidade...

Perdida para sempre a rua da cidade
Onde roubei-te um beijo de insano rapaz
E desse claro gesto de arroubo audaz
Ficou-se-me a lembrança que não tem idade!

Levada para longe eternamente a Dama
Na fúria do destino que corrói e vai
Ficou no peito aberto a chaga de quem ama,

O terno gosto passageiro que passou
E a parte do que faz aquilo que hoje sou,
Restou o coração com o espinho que não sai.


Francisco Settineri

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Velhos Companheiros de Luta



Eu não sei mais se foi dor ou se maldade,
Que matou o que era bom em meu irmão
O que foi e o que será na soledade
Que o procura na mais pura escuridão...


Francisco Settineri.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Prisão




Sentença, que contém a vida toda,
Maldiz a juventude desviada,
Afasta aquela perna bem torneada
Do alcance puro e simples de uma boda!

Do mais tristonho escrito de uma poda
Nas presas de uma cela, enlaçada,
Se vai a juventude, apertada
Pra trás, em vez pra frente, uma roda!

Que procuro, no fundo desta mala
Que mais peço, abscôndita fé?
Pode ser sonho, mas então cabala,

Pode ser tua mão ou antes teu pé
A vida que acaba numa bala
E a morte, terminada em parte ré!


Francisco Settineri

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Isto não é um Soneto




Isto não é um soneto
Início, meio e fim;
Numa torre de marfim
Tem capenga este quarteto!

Mas se o canto em dueto
Lá de cima um querubim
Ouve-o tintim por tintim
Hipotenusa e cateto...

Pois nele tudo é medido,
Urdido e muito cuidado,
Mesmo não sendo comprido.

Não pode ser estropiado
Mas sentido, o desvalido:
Reparem o seu bordado!


Francisco Settineri.

Bichanos



Ronronas ao meu carinho diário
E não sabes porque tanta meiguice.
Gatos são sempre curiosos, Alice,
E o dizem de modo multifário.

Por isso as rondas em voltas do aquário
Ou bolinhas de lã, em maluquices,
Mas nunca vi em ti uma tolice
São curiosos, mas nunca são otários!

Assim que foi tua vinda, devagar
Sempre com a voz doce, nunca mandona
Que fez o velho mel se derramar

Pra alguém que o coração nunca abandona
E brota à meia-noite em seu altar,
A minha Dama em flor de mim se adona!


Francisco Settineri.

Exílio



Os dedos de Safo de Lesbos
mal acariciam a seda:
Erguem-se os mamilos
para os céus
Tremor, clamor, escuridão
Estrela!

Francisco Settineri.

Borboleta





Podes bater na janela
a ciranda e o coração.
Não será como lagarta
Que tu voarás, canção.
Quando o anúncio assim se esboça
do teu salto para o ardor,
Sustenido e furta-cor
Levitarás sobre a flor...


Francis Ponge/transcriação libérrima de Francisco Settineri.

VEXAME



Os teus bastos cabelos, bela morena
Trazem consigo a saudade e o violão
E castigo na cantiga já sem pena!
Tempestade que é mais do que atração...

E, no entanto, tu aparentas paz serena
Que se estende à partitura da canção;
À menina meiga, uma flauta de avena
A soar entre as batidas, coração!

Ah! Acariciar-te o pêssego da pele
E gritar que não há outro que te ame
Na doçura que reserva-me o teu mel...

Eu farei o que só faz o olhar imbele
E virei, cavalo baio o meu corcel,
Na loucura de um clamor que te reclame!


Francisco Settineri.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Núbil



Eu gravo cada sílaba de teu nome
Que deixa em seu selo a fidúcia,
Mas isso não aplaca a minha fome
Daquela que provoca a minha audácia!

E ainda que a saudade assim me tome
Acabe com mi'a paz e com minúcia
Eu quero que este céu por fim retome
Teu corpo em sede em lira e mansa argúcia...

Mas veja que por fim ora ficamos
Na esfera, desde campos diferentes
E nós, sempre a brincar, nos esfregamos

Hilários, sem dar bola para as gentes.
Rolamos pelo chão neste entrementes,
No Amor que a ambos têm como seu Amo!

Francisco Settineri.

Pequenos Pássaros



Teus olhos, de mar verdes realeza
E o jeito com que a trato com lisura
Não deixam de fazer com que a tortura
Se agrande diante de tanta beleza.

Despida na penumbra com nobreza
Que eu chego a ter acessos de paúra
Embora me julgara um miúra
Que tomba morto em rios de grandeza!

Os frutos não são grandes, nem pequenos,
E levam-me à loucura, tão faceiro
E tornam meus ocasos mais amenos...

São peras, que eu sei, toquei primeiro
A ouvir tua voz aguda ao ar sereno
Ao ser-te, antes de tudo, um cavalheiro!


Francisco Settineri.

sábado, 11 de janeiro de 2014

ESTRELA CADENTE



Desatei fantasias, floração perplexa
E a festa dos meus olhos começou mais cedo.
Nua lembrei de ti em cópula convexa,
Mas que em nada provocava riso ou medo.

Juras recíprocas em cláusulas anexas,
Olhos voltados para as flores do arvoredo;
Peles a tremer em palavras desconexas,
Mãos, mamilos, testa, beijo; coxa e dedo.

A floração da primavera, incandescida,
Altissonava em rubros flamboyants de sonho...
E as nítidas estrelas, só por ti descidas,

Lembram a aurora mística de tempo antanho:
És para mim mais que a vestal não decaída,
Um sol em giraflor brilhando ao céu tristonho!



Francisco Settineri.

Nec Plus Ultra



Tanta vaga ao ar e à ave que revoa
E a brancura que se esparge no jardim,
Tens em ti Channel e o cheiro de alecrim
E este brilho flamejante da procela

Que ressoa! Como um verso de Pessoa!
Quem julga que o soneto teve o seu fim,
Não quis ou não pôde decretá-lo a mim
E há de mal passar demente a vida à toa...

Mas voltemos ao que interessa, agora.
Na volúpia deliciosa, trama e cama
O que mais posso fazer a uma Dama?

Pôr-lhe o selo à hora do calor da luta
Na maior das distinções, e ir embora,
Após abri-la e ferrá-la na disputa!


Francisco Settineri.

Janus



Eu torço a luz de volta ao céu de sonho
E cresce a maravilha no horizonte;
Engasto a pedra em brasa ao chão tristonho
E espero ajoelhado ao deus bifronte...

Mas tudo é vã minúcia ao trom tamanho,
E o inferno que sibila nesta fonte
Desaba e assa todos um bom rebanho,
Fiéis e bestas que não há quem conte!

Aspiro o fel da fétida fumaça
E tiro as jararacas de suas manhas,
Enquanto me divirto com chalaças

E fujo dos espectros com suas suas sanhas:
Desata agora a corda que te enlaça!
Arranca agora o grito das entranhas!

Francisco Settineri.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

NOSFERATU



Do avesso do meu verso a sintaxe
Que muito e tanto é sempre infringente
Profana tudo, ao cravar o dente
Na veia, como se a veia amasse...

Torcido e simples como o incunábulo
Da incurável espiral do sonho,
Tu tens em ti um quê de andar medonho
Cansado ar de feno no estábulo...

Incitas à mais pura hemorragia
Que encontra em meus caninos o seu dreno;
E o teu colo macio é o mais sereno,
Pudor maior, quem imaginaria?

Torpor da noite eterna que apresenta
Teu corpo ali jazendo à própria sorte,
Depois de fulminado pela Morte
Que viva vaga em véu, nada avarenta!


Francisco Settineri.