quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Arco-Íris




No mundo imenso,
Visão e dança
Fundem-se no que eu penso.

Do fundo do corpo
O encanto com que o canto,
Enfim, se afina.

Seja tua a minha pele,
Mãos que a buscam,
Dedos que a tocam,
Lira ao compasso que marco,

Enquanto
Tua íris bailarina
No azul do céu
Descreve um arco.


Francisco Settineri.

Inebriante

                                                                                                                                         


Isolados, morena furtiva,
Não dos frutos e das flores,
Mas nas palavras que nos dissemos,
Em que cada um de nós imagina

Os fantasmas que em si mesmo cria.
Mesmo não sendo mares, jardins,
Luas, auroras e sendas,
Sempre estaremos ébrios um do outro.

Na solidão das línguas que não
Se encontram, pelo e pele,
Prados, tambores que rufam,

Lindas flâmulas que revoam,
Almas distantes que se atraem,
Como um par de pólos retroversos...



Francisco Settineri.

PORTODOCORPO




O porto é corpo.
É cais onde se amarra,
Arte maior que se revela
Na volta da vela.

Na ânsia do teu retorno,
Corro a mão por teu contorno
(como se de cabelos se tratasse!).

O porto é corpo.
O corpo não é porto.

O cais
É mais que o muro que o separa
Mais que a distância
De teus olhos fitando,
Dança e lembrança.

O porto é corpo.
O corpo não é porto.
Por isso, tenho de voltar.


Francisco Settineri.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Time to go

 


O som das estrelas e da lua
Brilhando em tua noite, por janelas
Com o impacto insano de tua
Versão de cores tão amarelas.

O pundonor da alvorada nua
Como a serena pele da amada,
Fere, de mansinho, todas trevas
E vem, já sem pássaros, calado!

A doce lembrança, que é só tua
Estaca. E pousará seus lábios
No orvalho, com tremores sábios...

Uma alma ferida, ao pé da estrada,
Coração pulsando pela vida
Time to go. Hora da partida.





Francisco Settineri.

Soneto de pé quebrado

                                                                                                                                                                                              


O pulsar do coração, claro dilema,
Vai mais rápido na direção
Do mais íntimo do problema.
Em ti, morena, nunca é afável

A ternura, indecifrável, e o
Tremor que contracena.
Logo penso em teu abraço,
Em profundo descompasso,

Em despedida, encontro e aceno.
E mais se agranda tua falta,  
em fé intermitente e infinda.

Ponho freio em meu abismo:
Com métrica indecifrável,
Confiável, o verso tece o poema.


Francisco Settineri.

Tom sobre tom




Busquei-te, um dia, amiga,
Em teus escritos sobre o vazio,

Em tua árdua melancolia,
Em teus amores tortos,

Em teus regimes para emagrecer,
Em teu teatro, diário e mágico.

Hoje só te quero a meu lado,
Sem rezas, matinal e noturna,

De lingerie, perfume e batom:
Com calma, tom sobre tom...



Francisco Settineri.

Gosto




Da gargalhada hilária
e do riso trágico

Gosto
do teatro mágico
onde te extendes,
alma pura,
sorriso extenso...

Onde te escondes.
onde escondes
teu desejo mais profundo,
Intenso...

Praia
Praça
Gargalhadas
Boate
Futebol.


Francisco Settineri.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Soneto do furdunço




A confusão, o motim, a balbúrdia,
O sururu, o banzé, o barulho,
O auê, a barafunda, o embrulho,
O esporro, o caos, a anarquia.

Estrofes de bagunça, onde se lê
Algazarra, tumulto e fuzuê,
O charivari, a esculhambação:
Desarranjo, chinfrim, a danação,

Zoeira, babel, a perturbação,
E os atropelos, a atrapalhação,
Os desmandos, o cúmulo, a barbárie.


E, por fim, contando os dedos em série,
Depois de tanto tremer o coreto,
Conclui-se, da desordem, o soneto.



Francisco Settineri.

domingo, 28 de agosto de 2011

Purpurina


No meio da noite,
Ouço em mim o grito
De teu nome celestial
Que não foi dito.

As mulheres têm estrelas sobre a pele.

Tuas palavras, doces

Desde o começo,
Em meu seio poeta,
Antecipam saudades.

As mulheres têm estrelas sobre a pele.

Nunca me foi tão rápido
Vislumbrar num átimo
Tão bela alma feminina
Em teu peito de menina.

As mulheres têm estrelas sobre a pele.

A asa da noite encanta
E traz teu sorriso franco,
Que o dia acalma, e sóbrio
Levanta! E canta, louca,
Canta!

As mulheres têm estrelas sobre a pele.


 Francisco Settineri.

Moinho





A cachoeira de águas límpidas
E frescas
Move o moinho.
O moinho mói o grão.
O grão deixa de ser grão, e serve de alimento.
Bendito seja o grão.
Abençoado o moinho,
Que faz o grão abandonar
Seu passado de planta
E se tornar alimento.
Abençoada a cachoeira
Que movimenta o moinho
E purifica o passado,
Dando ao futuro seu alimento.
Ê moinho, ê moinho...
Ô cachoeira, que o move...



Francisco Settineri.

Bicho-da-seda





Amordaçado em teu sorriso mudo,
Já não encontro o que sou,
Nem mesmo sei se há uma saída...

Ou se a santa loucura
Irá acabar um dia.
Mas sei que não.
Não importa.

Quero suas mãos de ninfa
A me acariciar em sonhos
Cada vez mais infindos...

A me costurar nas malhas e nos pêlos.
Quero amarrar você
Em teias de palavras cada vez
Mais apertadas.

Enquanto você me fascina,
nada mais importa.

Permaneço mudo,
comendo folhas
e secretando fios

De palavras ao vento.



Francisco Settineri.

sábado, 27 de agosto de 2011

Epiderme





Imagino a tua pele;
Literalmente
P E L E
Quatro letras
Alastrando-se por ti mesma,

Envolvendo teu corpo
Feito de sonhos e de poemas...
Pele feita para encontros
E despedidas, idas e partidas!

PELE, PELE, PELE, PELE...

Pálida lua que me aquece a alma
E esquece...


Francisco Settineri.

Poema para os Olhos da Amada

 

 

 

 

Há em teu olhar misteriosa magia
Que de puras, fundas fontes emerge.
Algo que fulgura, e leso me arrepia
O corpo inteiro, que vai e converge

Para o cálido fundo do teu centro.

Voa em mim a fremente fantasia
De tomar-te, desnuda, noite adentro.
Que mais, Musa soberba, eu quereria


Se de embates carnais eu não soubesse?
Se sofresse de amor, noite vazia,
Doeria mais, se ela não quisesse,

Também, aquecer minha pele fria

E dar-se plena, toda, ao fero vento:
Vendavais de luz, seu olhar copia.



Francisco Settineri.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Rosário do Amor sem Fim

                                        
                                                                                                                                       
                                                                 


 “É preciso ter caos e frenesi dentro de si para dar à luz uma estrela bailarina”

F. Nietzsche.






Soneto I


Ao raiar de nosso encontro
Lembro rápido de uma cena
Cena curta, bem pequena,
Mas que se tornou canção.

Não sei nem como, morena
O que aconteceu comigo:
Olhar com olhar se afina?
Respostas não tenho não.

O sorriso que me deste
Deixou-me assim vagando,
Sem saber onde começa

A doçura dos teus olhos,
Sem pensar onde termina
A longa cauda do dragão.





Soneto II


A longa cauda do dragão
Serpenteia em minhas entranhas.
Bem mansas, as brisas brincam
Por lentas águas, morena...

Pequena, minha alma tisna
De azul o olho perfeito,
Reflexo sobre a janela,
Alvorada, e só canção.

A minha voz soa estranha,
Busca por ti, alfazema,
Margarida, flor d’água,

Mãos femininas no cio
Ao doce luar da manhã
Com estrelas de agapanto.





Soneto III


Com estrelas de agapanto,
Ergo, morena, meu canto
Até o fundo da mata
Em espada, rosa, alecrim.

Como dói a despedida,
Como urge o reencontro,
Cabelo, colo, pescoço,
Suave cheiro de jasmim.

Braços pra ti estendidos,
Longo aperto na partida,
Buscando, mesmo, o motivo...

Enquanto parto ao encontro
De uma dália de espanto,
Uma estrela bailarina!



 

Soneto IV
 

Uma estrela bailarina,
Sustenidos e bemóis,
Dançam com a lua fina
Em brilhante pas-de-deux!

A vida em clave de sol,
Mas não posso, morena,
Entreter as murmurantes
Águas límpidas de você.

Mistério! Teu olho inspira
Minha mais louca escuridão
Em pretumes de menina.

Mãos! Pra que quero ter mãos?
A não ser que para tê-las
Correndo por teus cabelos...



 

Soneto V



Correndo por teus cabelos
Feito áureos diademas
E frementes ao teu ouvido
Dedos, bocas e poemas

Em paixão desatinada.
Nunca fadados ao olvido,
Peles, pelos e um partido:
Sentido contra sentido.

Ah! Morena, dá-me tua mão,
Que de ti não tenho medo,
De mim sei que não tens pena!

Não sejas filha-de-maria.
Ao retirar tuas vestes
Brota e sangra a alegria.



 
Soneto VI
 

Brota e sangra a alegria
Em rochedos escarpados.
Doce, mansa lembrança:
Corpos suados, cansados.

Não, morena, não mais venhas
Acirrar a minha ânsia!
Um raio de sol feria
Entre as fímbrias da manhã.

Doce, ao dormir, teu sorriso
Eram lírios de esperança.
Cravos, faróis, pelicanos,

Tua voz, na manhã fria.
Toma, morena, sem  pressa,
Toma-me, a mim, te pertenço.


 



Soneto VII


Toma-me, a mim, te pertenço
Em cor, fúria e maresia.
Batem as asas ao vento
Com sombria companhia...

Balança ao ar um lenço
Em singela despedida.
Leva, morena, em teu seio
Meu coração peregrino.

Não! Não mais gritos, nem ais!
Não haja mácula na vela
Branca da partida, nem

Mesmo um suspiro comprido.
Olhemos a mesma estrela.
Meu coração é contigo.



Soneto VIII

Meu coração é contigo,
Em auroras de menino.
Piões e canções de roda,
Brinquedos e correria.

Vem comigo, vem, guria,
Roubei uma rosa pra ti.
Danço um tango, canto um hino,
Andaremos de mão dada.

Dada, ó morena, dada,
Linda e grande e desnuda.
Não mais fales, fica quieta.

Tempo grande, braço afim.
No lá fora, a rua é muda.
Eu quero o teu corpo pra mim.




 
Soneto IX

 
Eu quero o teu corpo pra mim
Em canduras de menina.
Com bordados no sutiã,
Pura alma feminina!

Salto dez, nariz pra cima,
E um sorriso bem maroto,
Pra deixar louca de feliz
Minha alma de garoto.

São só teus, morena, a lua
E o sol e os cataclismas,
As anêmonas e os vales,

O gado, o pasto e os açudes,
Das tiriricas os maços:
Parto cedo pros teus braços.



Soneto X



Parto cedo pros teus braços,
Quando canta o sabiá.
Bem encilhado o picaço,
Volto pro que me faz lembrar

E que insiste, morena,
Em te amar, e que se chama
Peito, alma, sofreguidão,
Sede, fome e coração.

Do animal não sei se afago
A crina, ou se em ti penso,
Pequena, e te puxo o rabo-

De-cavalo, de égua zaina,
Cavalgando redomona
Em minha alma com emoção.
 



Soneto XI


Em minha alma com emoção,
Refulgentes purpurinas.
Levas-me, morena, pela
Mão, com trejeitos e esmalte.

Tens estrelas sobre a pele,
E eu tenho, por minha parte,
Adagas presas na canção.
Na ponta dos pés combinas

Só tu, com teus negros olhos,
Que parte da minha arte
Te convém, na cama, à noite.

Vou solito ao cadafalso,
Sem ordem, e de bom grado,
Aceitar minha doce sina!



Soneto XII

 
Aceitar minha doce sina
Em cetins e aconchego
Era mais do que queria
Um experiente andarengo.

Ai, ai, ai! U’a perereca!
Corres pra mim toda nua.
O animal, por que o temes?
Se não tenho medo da tua...

Mas respeito o teu mistério.
Vem, morena, e reenceta
Altivez e magistério.

Calma, doce e recomposta,
Com os teus olhos me indicas
Prato novo, e a mesa posta.
 



Soneto XIII


Prato novo, e a mesa posta,
Em perfumes e aromas.
Clamor, tremor e arrebóis
E mais rufares de tambor!

É o que te custa o meu amor.
Delirantes, mas serenas
Mãos que te percorrem em flor,
Morena, e até a vasta

Amplidão da voz e do olhar
Só querem fixar o ardor.
Lembrar-me, só, não basta.

Uma alma com calma embarca.
Em alvíssaras de frescor
Deixo em ti a minha marca.
 



Soneto XIV


Deixo em ti a minha marca
E sobre tua pele um traço.
De alegria um chafariz,
De poemas uma arca.

Só te peço, menina, abre
Braços, pernas e alma bela,
Pra mim, com moreno jeito,
Move, princesa, a canela!

Meus pés vagaram o mundo
Andaram de antro em antro.
Quero, morena, um descanso

No entrevero do ancestral
Chamado que me fizeste
Ao raiar de nosso encontro!


Francisco Settineri