quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Soneto do Eterno Retorno



É intenso este momento em que te aguardo,
Galhardo renovar do olhar gentil
E o sonho insurgente com que ardo,
De te abraçar bem forte, em mão febril.

Por ser, no amor, um raro felizardo,
É presto o puro verso varonil,
A lira da canção que sempre guardo
É tua, em oração, riso infantil...

Se a volta habita em paz na despedida,
Recorre à muda seiva a primavera
E espera a sua vez de ser cumprida

Em clara, intensa luz que reverbera
Nascida no momento da partida:
Eu broto em ramo e flor, à tua espera!...

Francisco Settineri.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Soneto da Altivez



Morena, o teu sorriso é uma promessa
Que lança ao escuro breu o amargo pranto,
E nada, neste mundo, há que impeça
Que a luz do teu olhar vença o quebranto.

Caído pelo encanto, e bem depressa,
Eu vejo o verso comover-se em canto.
Não há, na vida, esforço que eu não meça,
Voltado a tua estrela, eterno espanto!

Se o andar da minha vida foi tão rude
E as poucas alegrias, passageiras,
Tiraste o espesso manto da inquietude,

Coa vida de tuas mãos tão companheiras.
Se, desde então, te amei o quanto pude,
Tu moras nas visões mais altaneiras!
Francisco Settineri.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Soneto do Milagre




Imerso em teu perfume, ao beijo rubro
Dos lábios com que esperas, tão ansiosa,
Eu vejo que manténs, maravilhosa,
No peito esse milagre que descubro!

E foi no acalanto de um outubro
Que tu vieste a mim, toda briosa,
E eu tenho em teu amor a mais zelosa
Canção de eterna paz com que me cubro.

Nascente de esperança e de ousadia,
Na vera luz de um tal condão divino,
Afasto, de um só golpe, a calmaria,

Ao céu e ao mar eu insurreto ensino.
Por ti, enfrento a louca ventania,
Em transe, ao teu olhar, o meu destino!



Francisco Settineri.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Soneto da Viola



Tu trazes, em teu corpo, a delícia
Da nau que vai pro mar, aventureira,
E eu faço do teu leito uma lareira
Que aquece o coração, desde a primícia.

Retiras as tuas vestes sem malícia
Como se fosse, aos céus, a vez primeira,
E nesta linda aurora alvissareira,
Espero em muda paz a hora propícia...

Eu sonho com a beleza com que abordas
As mãos a te buscar, sereno tento,
Na hora em que tu dormes, e que acordas,

E faço do teu corpo um instrumento,
Viola do querer, em muitas cordas,
Sempre a tanger-te, em novo encantamento!


Francisco Settineri.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Soneto do Vulcão




Eu vou escrever os mais soberbos versos
No candor de tua serena harmonia,
E a brava fome de mil universos
Em sedução de ousada fantasia!

Se a teus olhos, em desejos diversos,
A sombra do meu corpo se arrepia
Na funda e escura fonte estão imersos,
E a paz de estar contente se irradia...

Porque, ao nos tomarmos lentamente,
A fúria deste amor se torna inata,
Volúpias de um vulcão que era dormente

E agora, indomável, se desata;
A lava que transborda está fervente,
Põe fogo em todo o céu e a densa mata!


Francisco Settineri.

Adeus a Carlos Magno



Talhado para a dor, enquanto sonhas
Torpores de uma alma desabrida,
Alteada a nua vela de partida,
Saíste desta vida em mãos medonhas...

O rumo das estrelas que tu ganhas,
Final feroz de uma canção sofrida
Não despe o brilho claro de uma vida,
Fulgor de mansa luz, até as entranhas!...

Partiste, e nós, de coração partido,
Na bênção que deixaste em tua ausência,
Coas mãos que celebraste, em verso lido

Tu foste para a Terra da Inocência,
Tal como havia sido prometido
A Abrão e a toda sua descendência...


Francisco Settineri.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Soneto da Querência




Nasci pro teu olhar, no mesmo instante,
Mas tu só me chamaste num momento,
A despertar calor e sentimento,
Quando pousaste, terna e elegante.

Foi rápido o cantar, mesmo distante,
Daquela que tomou meu pensamento;
Se amar demais tornou-se o meu tormento
Sonetos a teus pés, faço ofegante...

Nas coxilhas de verdores primeiros,
Na Querência de nascer e viver,
Eu me desnudo em ardores certeiros,

Em ânsia de querer e a flor colher.
Porque te amo em versos derradeiros,
Como um poema em forma de mulher!


Francisco Settineri.

domingo, 20 de novembro de 2011

Soneto de La Mancha




Em teus braços, eu volto a ser criança,
E a vida não parece passageira...
Mas quero, desde aquela vez primeira
Um beijo de tua boca, na esperança

De andar, nessa avenida, em aliança,
No céu de pura paz, tão verdadeira.
Eu abro o coração, por vez primeira
E chamo o meu parceiro Sancho Pança,

De andança, em que me perco até o fim.
Eu me tornei cavaleiro manchego,
Guiado por um anjo serafim,

Por uma doce Dama, sem sossego,
Eu quase sinto um cheiro de alecrim,
Ao te tomar, em sonhos, no aconchego...


Francisco Settineri.

Formosa




Hoje acordei todo prosa,
Mal terminava o luar,
Que era pra fácil louvar
O Deus que te fez formosa!

Nesta manhã amorosa,
Eu cantei o céu e o mar,
Mil canções fiz disparar
Pra cultuar minha rosa!

O carinho que te fiz
Foi intenso, verdadeiro,
Se eu te vi, em flor e anis,

Da aurora fui parceiro.
Mas tristeza não condiz,
Muito tarde, amei primeiro!...


Francisco Settineri.

sábado, 19 de novembro de 2011

Açoriana




O crepúsculo e o luar,
Que tão lépida incendeias,
Tornam fácil ver cantar
Coração que pisoteias.

Porque ao me ver amar,
E sofrer em tuas cadeias,
Tu trouxeste do Além-Mar
Todo o canto das sereias...

Nas calçadas encantadas
Em que ficou tua presença,
Amo-te nas madrugadas

E tenho por recompensa
Ver a Rua dos Andradas,
Num brilhar de paz imensa!


Francisco Settineri.