sábado, 31 de dezembro de 2011

Soneto do Ano Novo


No pão que vem à mesa uma verdade
Da vida vigorosa que já acena.
Que a noite da passagem seja amena
No adeus dos que se foram, com saudade...

Ao céu comum, feliz, dessa irmandade
O canto de emoção da paz terrena,
Que o eito recomece na alma plena
De tudo o que inicia sem vaidade.

Na leiva à espera a chuva é sempre cara,
E um verde manto cresce dessa alcova,
A safra alegre em ramos se prepara

E o sol desta manhã risonho aprova:
No grão que volta à terra em que se ara
Há sempre um grande amor que se renova...




Francisco Settineri.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Soneto de Matar Saudade



Chegada, enfim, a hora da viagem,
Esperas-me nas vestes da candura.
Se seguem versos simples na bagagem,
Eu parto em meio à pressa e a estrada escura...

Carrego nos meus sonhos tua imagem
E a dor dessa distância me tortura,
O meu ardor é pura flor selvagem,
Pois quero ter de novo essa ventura!

Ficar longe de ti é uma maldade,
Foi tempo de tristeza e horas penosas,
E junto dos teus braços, com vontade

Teremos juntos noites primorosas:
É tempo de matar toda a saudade
Teu corpo envolto em pétalas de rosas.


Francisco Settineri.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Soneto de Amarrar Morena



Eu tenho em mãos o fogo em tez morena,
E imponho ao belo corpo uma vontade;
Se mesmo assim, tu ficas tão serena,
Meu cenho hoje contém a tempestade!

Se ordeno que te dispas nesta cena,
Tu choras, ao perder a majestade,
E pedes que eu te imponha a dura pena,
Dizendo que a mereces, na verdade.

E nada neste mundo mais contenta,
Desfeitos os lençóis em que te agarro.
Por nua e submissa, e à mão violenta,

Que gemes louca ao cio, olhar bizarro:
O grito a Eros logo se apresenta,
Nas cordas mais macias eu te amarro.


Francisco Settineri.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Soneto da Saudade




Vontade de ficar mais um momento
Na paz que se plantou na vez primeira
Do abraço, que com todo o sentimento
Marcou, de uma só vez, a vida inteira.

Na pele contra pele o mandamento,
Fincado em duro chão, como bandeira
E o claro olhar, no ausente movimento,
Brotou como uma flor, rosa altaneira!

Eu ardo em um amor que não consente
Que eu pense em outra coisa a meu redor,
Se em tua ausência eu me tornei presente,

Saudade me consome em tom maior.
Na brava despedida, a voz não mente,
Eu sonho com teu corpo, em plena dor!...


Francisco Settineri.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Soneto do Clarão de Luz



Tornaste para mim de puro encanto
A vida em que de outrora me perdi
E os cantos se tornaram potpourri
Em cais de alegria e acalanto...

Estrelas que debruam o teu manto,
Que esconde a mais picante lingerie,
Do jeito que a te amar eu aprendi,
Escondem-se a piscar de puro espanto!

Fulguras no meu céu como diamante
Intrépido clarão, de luz orgia
Vistosa sedução, olhar flamante

Na paz que só a noite propicia
Me invade a tua presença a cada instante,
Beleza de arrebol que a flor copia...



Francisco Settineri.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Soneto da Alegria




O teu amor, gentil pétala rara,
Que em meio à manhã clara veio a lume
Enfeita no teu seio a tez bizarra
E rouba de mil rosas seu perfume...

Mas se é também a flor que desampara
E arranca aos fracos todo o seu queixume,
Em mim é eterna fonte que prepara
E leva-me direto a qualquer cume!

Se eu te tomei com toda uma ousadia
Sabia que em teu mar não há sossego,
Era preciso toda a galhardia

De um cego e muito louco desapego:
Mergulho em teu olhar, pura alegria
E te amo sem descanso, no aconchego!...



Francisco Settineri.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Soneto da Dor de Amar



Eu dei meu coração a essa tirana
E vejo desfilar na minha frente
Seu corpo, na nudez mais soberana,
Que traz ao coração a dor pungente...

Mistério de um amor que mais emana
Do encanto, que ao nascer, se dá contente,
Condão de um bem-querer que nunca fana
E planta na canção sua semente.

E nesse império, quase um absoluto,
A paz desaparece por encanto,
O teu olhar, meu último reduto

É fina flor de puro e raro encanto.
Não posso respirar nem um minuto,
E odeio, por fazeres te amar tanto!



Francisco Settineri.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Soneto da Alma Morena




Tão doces os teus olhos quando miras
O céu que parecia estar perdido
E eu quero coroar-te de safiras
Enquanto te contemplo, comovido.

As névoas do passado são mentiras,
De nada importa o pranto ressentido,
A vida inspira em nós as novas liras
E a negra noite agora é puro olvido!

Colhi a linda flor, pura verbena,
E o dom foi despertado, tão ligeiro,
Mas quando te entregaste, alma morena,

Na sede de te amar eu fui primeiro,
Pois vi que a vida é intensa e vale a pena,
Tomei minha mulher de corpo inteiro.


Francisco Settineri.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Carinhosa



Eu colhi linda açucena
Que roubei de um colibri
E o canto do bentevi
Enfeitou minha pequena.

Tanta fome foi por ti,
Teu andar, bela morena
Tanto garbo, tanta cena,
Que de ardor eu me vesti.

Retiraste o meu espinho
Escondido em algum canto
Coração que foi sozinho,

A gemer em claro pranto.
Se mereço o teu carinho
Minha vida é só de encanto!



Francisco Settineri.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Soneto do Regaço




Teus olhos, em tua paz, são de uma vida
Nascida para me deixar contente,
E nada do que te tornou presente
Pressente a dura dor da tua partida.

Mas brota a terna flor na despedida
Acariciada ao sol do céu clemente,
Espero ver de novo, na vertente
Augusta paz em cálida guarida.

Tu voltas para mim, pra meu regalo,
Retorno que saudoso eu alucino...
É mais do que um encanto admirá-lo,

Verdade de um amor tão cristalino.
É quando, em teu regaço, já me embalo,
Sou sempre, nos teus braços, um menino.


Francisco Settineri.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Soneto da Sedução



Teu corpo é um lindo mar, e eu sou a vela,
E tomo-te os cabelos, irrequieto,
Eu ardo em teu calor, e é por completo,
Não curvo a minha fronte na procela!

A flor que tens nas mãos, bem amarela,
É incêndio no meu cerne mais secreto,
Se eu bordo a tarda paz em tom discreto
A luz daquela estrela era mais bela...

Habita em teu olhar, não mais desmentes
O quanto, em teu recato, estás desnuda,
E tornas teus encantos mais presentes.

Mas eu, diante de ti, dispenso ajuda:
Os panos que te cobrem caem contentes
E a noite, em seu mormaço, é mais que muda...


Francisco Settineri.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Soneto da Rosa Infante




O teu perfume vale o teu espinho,
E as pétalas partidas a essência
De toda a dor que impera, em tua ausência
Enquanto eu pinto em cor o amado ninho.

É quando ouso beber o amargo vinho
Das trevas do ocaso da existência
E a noite traz tua face, numa urgência
Que chama corpo e alma ao torvelinho.

E o mero desfolhar da rosa infante,
Não cabe relembrá-lo com tristeza,
Mas é muito melhor ver no mirante

Visão de toda a tua realeza.
Se foste, para mim, mulher distante,
Desnudas no meu leito a tua beleza!...


Francisco Settineri.