sábado, 29 de junho de 2013

a



Saber teu rosto em paz há muito alegra
Aquele olhar antigo a ver ainda
Que a fonte enfim traz algo que não finda
Imerso nessa luz que desintegra...

E mesmo bem depois que a face negra
Alente-se na nova aurora vinda,
Ainda lembrarei, tristeza infinda
De tudo o que é perdido, como regra.

Mas nada a não ser canto a ti prometo
Pois sei do mundo por estreita senda.
Entrego as poucas linhas que cometo

E mais não sei fazer sob encomenda:
No mar do teu encanto eu me acometo
Avesso, o verso avista e o véu desvenda!


Francisco Settineri.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

torpe



choque copa choque
copa choque copa
copa perto choque
tropa porta copa
copa choque corpo
perto aperta tropa
pétreo apelo esperto
choque choque choque

Francisco Settineri

sábado, 8 de junho de 2013

Insensato



Reparo cada tom do teu retrato
E nada justifica essa demora
Pois que hoje a madrugada foi-se embora
E o tempo que passou agora é fato...

Porém, eu reconheço de imediato,
Vislumbre que me diz que já é hora
Pois vejo que uma vez mais se assenhora
Aquela que de mim fez insensato.

Ao dar-te ao coração delicadeza,
Assim um desafio a mais levanto
Que eu sei que não escapas da certeza

Pois giras na vertigem do meu canto
Que vai assinalar grande proeza,
Não houve outro poeta a te amar tanto!


Francisco Settineri.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Lúgubre



O que era belo hoje só causa medo
Que no teu canto preludiou o grito,
Partem-se crânios contra este rochedo
Pululam vermes em tremendo rito.

Movem-se ainda as mãos no arremedo
Do que da boca não vai mais ser dito,
Do vivo ao morto já não há segredo
Terror que espalha-se no céu aflito.

Essa lembrança em célere teatro
Num barco podre que afundou no cais
É o que me resta, mais sinistro e atro,

Horrenda chaga a esgravatar demais...
Então rastejo e vejo o magro espectro
Do velho corvo a repetir - Não mais!


Francisco Settineri.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Bem-te-vi



Previsível sem engano,
Corajoso ao exagero
Ele ensaia seu bolero
Do Rio Grande ao altiplano!

Com um quê de olhar humano
Ele vê o fervor sincero
Com que almeja o quero-quero,
Testemunha cada plano.

Porque acorda sempre cedo
Quando tudo o mais é mudo
Ele tem tanto segredo

A calar no céu, contudo:
Ao deixar todos com medo,
Bem-te-vi sabe de tudo...


Francisco Settineri.