domingo, 12 de agosto de 2012

Soneto das Primícias



Despede-te da vida antes sofrida
Pois que é chegada a hora da risada,
E quando a noite for, serás amada
No leito em que te mostras destemida...

Mas sempre tens em mim mansa guarida,
Serás o véu da flor que se desnuda
A pele que me vem desamparada,
Que aninho em meio aos lábios desta vida!

Porque tu me mostraste o vero pranto
E eu dei à luz a paz, como um lampejo
E ouvi na dor vivaz não mais que um canto,

Prelúdio do que foi mero desejo:
Sem pejo, eu me devoto ao teu encanto,
Travessa, entre bemóis, eu te solfejo...


Francisco Settineri.

Enigma



Eu te peço com respeito
Se és poeta, não respondas
Não te furtes, nem escondas
O que traz a dor no peito...

Poderá haver um jeito
Nessa estrada por que sondas,
Quando vais por entre rondas
Procurar amor perfeito?

Mas tu foges do bulício,
No silêncio com que lavras
Solidão de mil palavras

A brincar tão de repente,
Apesar de ser propício
Que te cales, simplesmente...


Francisco Settineri.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Sensações



No altar da vida eu quis a minha Dama
Na pele um leve cheiro de jasmim,
Tão linda que até o mar reclama
Levá-la para bem longe de mim...

Tão triste, pois que o próprio céu difama
E o vento lança pó em seu cetim,
Mas mesmo assim de amor ela me inflama
E nos seus braços vejo azul meu fim...

E voas, louca, ao tempo que tecia
Da voz nascente o corpo e as mãos postas
No amparo que o teu gesto propicia.

No leito em que a gemer tu te recostas
Eu sinto a boca arder em agonia,
Temores ao beijar as tuas costas...


Francisco Settineri.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Prenda



Seque as lágrimas da face
E retorne a mim sorrindo,
Pois bem sei o quanto é lindo
Ter alguém que bem te abrace!

Pois aguardo o desenlace
Dessa festa com que brindo
Tuas mãos a mim se abrindo
Quando o corpo se anoitece...

Entre pétalas de rosa
Nos lençóis por onde brilhas
Tu te escondes, tão airosa,

E ao final, mil maravilhas,
Ao saber que me desposa
Anjo puro em prenda e trilhas...


Francisco Settineri.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Cantiga


Canto forte, com ardor de verso nobre
Na delícia de te ver toda faceira,
Do encanto de um poema que se abre
E resolve ultrapassar qualquer fronteira...

Canto mais, até que a alma se recobre
Do temor em que se pôs a vida inteira,
Melodia que essas vozes entreabre
Orgulhosa em seu querer, tão sobranceira!

Mas se danças ao meu canto tão potente
E este vento te acompanha em assobio,
Eu prossigo em desferir muito insolente

Minhas notas no audacioso desafio
De compor feliz, na perfeição da mente
A lembrança que me vem como arrepio!


Francisco Settineri.

domingo, 5 de agosto de 2012

Tumultuado



Quem dera não sentir tanta ternura
E os lábios manter quietos, sem dizer-te
O quanto sem querer tu cometeste
Ao relembrar pra mim tanta ventura...

Pois vem para o meu céu toda a loucura
No manto de furor com que te vestes,
Espalhas com tuas mãos toda uma peste
Que o coração servil logo tortura!

E o náufrago à procura de um abrigo
Nas tábuas de seu mundo que perece
Já tenta se afastar deste perigo

No murmurar de vozes de uma prece:
Que o amor não seja mais do que um castigo,
E grande insensatez à terra desce!


Francisco Settineri.

sábado, 4 de agosto de 2012

Abraço


Penetro o teu castelo e me apresento
E o verso nesta veia desatina,
Da tua paz dourada eu não me ausento,
Imerso na mansão tão cristalina

Onde a canção floresce tempo e vento.
Desfaz-se num momento essa neblina
E o amor coloca em ti todo um portento:
Nos braços, a doçura um gesto afina!

O olho que em tua alma se demora
É o mesmo que com calma te devora.
Não sei se junto a ti sou velho ou moço

E as mãos que se renovam no alvoroço
Já sabem dos cabelos e da hora
De um beijo a passear em teu pescoço...


Francisco Settineri.

O SOM DO SILÊNCIO

.   Fim da tarde, o sol se esconde, E, por fim, a lava escorre Deste Etna que não morre, E que vai não sabe onde... . O fogo parece fronde. ...