sexta-feira, 21 de março de 2014

A Rosa



Ela torna o riso claro e a dor formosa
De um espinho esperado em sua dureza
Despetala-se no coração a rosa
Sem perder, por um intante, sua pureza...

Assim vai-se enrugando a flor mimosa
Mas mantendo sempre sua inteireza
Desde o tempo em que a olhava todo prosa
O poeta que cantava a sua beleza!


Belo ocaso, final mudo porém digno
De quem teve homenagem vária e tanta
De um olhar que sempre a amou, forte e benigno

E que ainda soridente dança e canta
Mas que lança aos céus de novo um terno signo
Que na doce madrugada me acalanta!


Francisco Settineri.

domingo, 16 de março de 2014

Madona




A luz renova a treva sem recurso
E eu busco na tua paz a natureza
De um porto que me fez fruir beleza
Na vida que sossega em seu curso.

Então vem constelado um discurso
Com versos em sua única inteireza
E a flor que está a meu lado é só grandeza
E há um brinquedo ao lado: é um urso!

Então eu só me alinho, à espreita
De ajeitar pra ti fina coberta
E o sol dessa manhã demais respeita

Com toque bem sutil, janela aberta;
E é quando tu despertas e aleitas
O fruto de um amor na hora certa.


Francisco Settineri.
Crepúsculo


A sarça firma o verde contra a encosta
E a água conta histórias de antanho.
Fascinam-me as de maior tamanho,
Gigantes levam rochas sobre as costas!

Erguidas de um só golpe todas hastas,
O vento assobia um som estranho
Que prenuncia, enfim, um grande lanho
Na tarde que acabou e já diz – basta!

A paz cai no silêncio que se entenda,
A ave volta ao ninho sem descaso.
Não há nesse remanso ar de contenda,

Murmúrios nos duetos ao acaso;
E o rio no burburinho de encomenda:
Eu bebo na nascente o céu do ocaso!


Francisco Settineri.

Morituro



O coração agora se amotina
Mas sabe que mais tarde fica mudo
Pois passa, tudo passa, passa tudo
Não há para esse mal uma morfina!

Com o tempo ele acostuma e se refina
E larga a ilusão de ser graúdo
Pois sabe que eu também não mais me iludo
Nos bens que me passaram na retina.

E pouca gente há que não entenda
No dia em que chegar a sua hora,
Saudade de um amor não vai embora

Vislumbre de um descanso numa fenda
Daquela que com foice vem de fora,
Libertos corpo e alma e a dor tremenda!


Francisco Settineri.

sábado, 15 de março de 2014

Esguia



Arrisco à dama o meu olhar furtivo
E a moça nem em sonhos imagina
A lava do vulcão que fugitivo
Crepita ao pé do monte que ilumina.

Pois que esse teu olhar deixou cativo,
Furtou de senso a mente a flor menina.
Estou privado assim de lenitivo
E o brilho de tua face amar ensina.

À noite o meu desejo se escancara,
E custo a adormecer, sonhando a tua
Beleza que acontece e a dor sara

Enquanto as vestes caem e a nua
Moçoila que me deixa em falta amara
Me surge em sonhos feito arfante Lua!


Francisco Settineri.

Gafanhoto



Controlado por alguma força interna
De um verde quase igual à tenra folha,
Desconjunta-se o interior dessa caverna
Cada perna vai ao ar, não tem escolha!

Devorado pela fome que o domina,
Escandidos pés em paz depois que pousa
Recortando tudo o que ninguém ensina
Vêm aos bandos, enfrentá-los ninguém ousa...

Uma nuvem de terror que desarvora
Batalhões sem chefe, contudo inclementes
Desolado o campo quando vão embora
Eis que um deus levou lavoura entre seus dentes!

Francisco Settineri.

Carnival Glass



Não sei bem se eu consigo ser tão falso
Neste mundo tão repleto de estrelas,
Uma plêiade de astros a contê-las
Tendo o peito à beira deste cadafalso

E retiram dos teus pés de um chute o calço.
Se por derradeira vez, pudesses vê-las
Neste mundo tão repleto de estrelas
Que penduram a esperança, pés descalços.

Borbotões de alegria na cidade,
Carnavais de etanol, com muito esmero
Insolência transformada em veleidade...

Prostitutas, rufiões como tempero,
Tanto afã de demonstrar felicidade
Escondida atrás de muito desespero!


Francisco Settineri.

O SOM DO SILÊNCIO

.   Fim da tarde, o sol se esconde, E, por fim, a lava escorre Deste Etna que não morre, E que vai não sabe onde... . O fogo parece fronde. ...