sábado, 28 de setembro de 2013

A Morte do Poeta



Surgido em ti qual flor que me depara
Com tintas decididas do poente
O espectro então penetra o calmo dente
e livra do teu dorso aquela escara!

Alenta-se na mente o que lembrara
O encontro em destemor que esteve à frente
E o gesto que se foi e está dormente
Espalha a doce imagem que foi cara...

Na face a dor que mansa nos ensina
O fato de existir, raro portento
Da terra cuja espera já termina

Afasta da feição o parco augúrio:
No enlevo de abraçar que é firme e lento,
Da vida o ardor que acaba num murmúrio...


Francisco Settineri.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

metamorfose



a angústia me consome


avatar da morte incerta


carapaça e nó que aperta


o meu mundo que se some





Francisco Settineri.

sábado, 31 de agosto de 2013

Ofertório




Névoa que desfaz um tosco eu em cinzas,

Ao não ser então mais do que essa outra bruma

No discreto olhar que até que enfim se apruma

E volta invertido pela correnteza...



Plano que devolve o nada que desprezas,

Resto especular do nexo que se esfuma

Preso na ciranda ao deixar-se, em suma

Mal se abandonar à morte sem grandeza!



O calor de ontem hoje busca um norte

Que nos faça dois nas núpcias deste drama

E que lance as marcas de um abraço forte,



Sulco milenar em repetida trama:

Peso mineral que o horizonte entorte,

Vento sideral que lento se esparrama...



Francisco Settineri.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Réquiem



Cantar eu não quis mais em verso rude
A olhar com destemor, intacto e quedo
Recolho a brisa que corre em segredo
Disposta a desnudar qualquer virtude.

Contemplo as minhas mãos, para que mude
A espera que me toma desde cedo
E pus-me a deslizar, então sem medo
Por entre agudas pedras da inquietude...

Aferro-me a um sinal, que de saída
Furtava-se à noção e parecia
Desenterrar a dor mais desabrida

Vertido em tom de olhar que a luz copia,
De uma sombria tela, tosca e ida
Roubei a cor que não te pertencia...

Francisco Settineri.

domingo, 7 de julho de 2013

Sentinela



Imerso na neblina o vulto inquieto
Engasga na distância que o separa
Do gesto que se esvai, pétala rara
Sem escapar do inclemente veto.

Douradas as veredas no indiscreto
Tremor de uma palavra que era cara
Que o zelo esconso da memória avara
Insiste em apartar-se por completo.

Não fosse por um laço, amarelo
E mais eu não teria se não fosse
Um desatar de nós sem atropelo

Da noite em riso azul que assim tomou-se
No deliciar dos dedos no cabelo,
Passado a escorregar, que era tão doce...


Francisco Settineri.

sábado, 29 de junho de 2013

a



Saber teu rosto em paz há muito alegra
Aquele olhar antigo a ver ainda
Que a fonte enfim traz algo que não finda
Imerso nessa luz que desintegra...

E mesmo bem depois que a face negra
Alente-se na nova aurora vinda,
Ainda lembrarei, tristeza infinda
De tudo o que é perdido, como regra.

Mas nada a não ser canto a ti prometo
Pois sei do mundo por estreita senda.
Entrego as poucas linhas que cometo

E mais não sei fazer sob encomenda:
No mar do teu encanto eu me acometo
Avesso, o verso avista e o véu desvenda!


Francisco Settineri.

O SOM DO SILÊNCIO

.   Fim da tarde, o sol se esconde, E, por fim, a lava escorre Deste Etna que não morre, E que vai não sabe onde... . O fogo parece fronde. ...