domingo, 10 de novembro de 2013

Olhos Negros





O poeta lavra a letra, ardente herói

Afasta a lava que te corrói, fervente,

Repara, pois, com teu olho que não mente

O quanto o amor é doce e como dói.



Se versos tristes que te disse a bruma rói

Ela os mastiga calma com seu fero dente

Como viver e ter a dura vida à frente,

Se o soluço cresce e a vida se destrói!



Se a vida um dia te pareceu vazia

Afasto a lava que te corrói, fervente

Só quero a tua mão pura, que sente

O amor livre de tédio e de melancolia.


Francisco Settineri

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Um barco se aproxima em cais de pedra




Um barco se aproxima em cais de pedra
Convida a viajar ao Aqueronte
Gentil, cortês, conduz a nau Caronte
Em meio ao desespero que aqui medra.

Não sabes mais se a sombra que ora chega
É o nada a desfilar na tua frente
Da treva que te envolve o abraço quente,
Mortalha que te cai em tensa entrega!

Destino ao qual somente o herói escapa
No resgatar audaz do inferno a Dama
E o deus do mundo odiento a si reclama
A parte que lhe cabe, obscuro mapa...

E cais a delirar no humor sombrio
Das águas a vencer pelo barqueiro
E nada ao céu impede o ardor primeiro
Que firme impele ao vento o rosto frio!


Francisco Settineri.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Caverna


(a Ângelo Luís)


O olhar que engole as grades e parece
Não caber na fraca luz e a dura cama
Faz gelar o que é do sonho e escreve o drama,
Teoremas espectrais que a treva tece...

Pois de haver tão perto assim o que hoje cresce
Nos escárnios do trovão que se reclama
Dessa estaca pontiaguda, augusta flama
Nascerá no rosto a paz que se entristece...

No rigor da extensa ausência, na miséria
Que profere, dos recônditos da lama
A algemada solidão em sede inglória,

Mil volutas e protestos e proclamas:
O poeta come as pedras da vitória,
Noite longa sem ternura e amor sem dama!


Francisco Settineri.

sábado, 19 de outubro de 2013

Pacto



Um dia enfim a calma e a esperança

acharam de viver no mesmo teto,

a vida com outra vida assim se trança

e o filho engendra um filho e tenho um neto

que se fez esperar, ardor dileto

e alguém, além de mim, tem na lembrança!


Francisco Settineri.

sábado, 28 de setembro de 2013

A Morte do Poeta



Surgido em ti qual flor que me depara
Com tintas decididas do poente
O espectro então penetra o calmo dente
e livra do teu dorso aquela escara!

Alenta-se na mente o que lembrara
O encontro em destemor que esteve à frente
E o gesto que se foi e está dormente
Espalha a doce imagem que foi cara...

Na face a dor que mansa nos ensina
O fato de existir, raro portento
Da terra cuja espera já termina

Afasta da feição o parco augúrio:
No enlevo de abraçar que é firme e lento,
Da vida o ardor que acaba num murmúrio...


Francisco Settineri.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

metamorfose



a angústia me consome


avatar da morte incerta


carapaça e nó que aperta


o meu mundo que se some





Francisco Settineri.

O SOM DO SILÊNCIO

.   Fim da tarde, o sol se esconde, E, por fim, a lava escorre Deste Etna que não morre, E que vai não sabe onde... . O fogo parece fronde. ...