quarta-feira, 30 de abril de 2014

Folclore



Quem cochicha, rabo espicha,
Quem se importa, rabo entorta
Quem vai lá na minha porta
Desafio em nova rixa?

Quem tem boca vai a Roma
Quem tem pernas vai ao rumo
Mas qual é o supra-sumo
Desse mel que tem aroma?

Atirei um limão n'água,
De pesado foi o fundo,
O que há de mais profundo
Que essa lágrima de mágoa?

Como pode um peixe vivo
Viver fora d'água fria
Se soubesses, ó Maria,
Que cansei de estar cativo....

Teresinha de Jesus,
Acudiram cavalheiros
Escolheu o sem dinheiro
E na vida levou truz!


Francisco Settineri.

Amor Criança



A muitos o amor é uma chaga
Uma fogueira que jamais expira
Eu ponho logo o coração na pira
Mantendo a chama que nunca se apaga...

Pois nesta vida não há mais quem traga
E quem o nega está a dizer mentira
O meu querer é bem maior que a ira
E é com carinho que ele se paga!

Pois de mãos dadas na roda-gigante
Um sonho bom de se tornar criança,
Uma canção talvez seja o bastante

Para entornar a lágrima e a dança,
Pois meu olhar é para ti vibrante
Já que tu és bela moça de trança...


Francisco Settineri.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Indecoroso



Vem, moça, vem, que o poeta já te espera
Alta está a noite, e é passada a hora,
Desfazer os laços e tornar senhora,
A razão se vai e o desejo impera!

E teu nome, que a memória refrigera
Lembra-me contudo que é sem demora
Tomar as tuas mãos, esperar a aurora
Ambos recolhidos numa mesma esfera...

Quero o benfazejo da tua face nua
Corpo contra corpo na veloz cantiga
Fazer tu saberes que a flor é tua

E essa alvorada é nossa inimiga:
Quando os galos cantam e o orvalho sua
Vai que nossas peles terminaram a briga!


Francisco Settineri.

domingo, 27 de abril de 2014

Atalanta



O cravo brigou com a rosa
Não devia ter brigado
Pois depois, bem desolado
Teve ânsia pavorosa...

Não adianta, não se escapa
Do que leva o peito ao pranto
Vai virando aos poucos canto
E não vai sair do mapa!

Por isso que não adianta
Deixar-se levar à intriga
Arranhar-se numa briga
Nas corridas de Atalanta.

Mas, como diz a cantiga,
O amor é doce entrega
Não se livra da fadiga,
Se correr o bicho pega!

E se pega o bicho come
Ele engole sem pensar
Fico aqui a te adorar
Que de ti eu tenho fome!


Francisco Settineri.

Nudez







Pressinto em tuas mãos que expostas nuas

Clareza que se mostra em lábio escarlate

É mais do que pode suportar um vate

Que anda a cantarolar em meio às ruas...



O meu querer logo quis que fossem tuas

Flores que nasceram do interno embate

E o meu versejar caiu no disparate,

Logo se propôs a dizer sóis e luas!



E a madrugada me encontrou gelado

Louco a gemer, tomado por Cupido

Pois que o teu olhar não me deixou de lado



Mesmo na canção que me encontrou caído

E a minha alma me deixou de lado,

Luz da tua visão que me encontrou despido!





Francisco Settineri.

sábado, 26 de abril de 2014

Peleia



Foi no andar de cima que amigos conversamos
Mas o desentender-se bateu duplamente
E nada do que houvera impediu que essa mente
Soubesse entender um só clamor dos reclamos!

Chamei à razão do que jamais era fútil
Tanto que argumentei que as nostálgicas brisas
Me eram favoráveis e que as suas rezas
Não trariam de volta a Dama e era inútil

Argumentar uma suposta primazia
De telefonemas na calada da noite,
Da falta que lhe calhava feito um açoite
Do céu que ferido roubava a fantasia.

Na queda que encetou o final das arestas
Nada restou senão uma imensa tontura
Pelos braços do pânico e tremenda amargura
Sentiu cada degrau bater em suas costas...


Francisco Settineri.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A Rede



Pesquei no mar da língua o termo certo
Pra te dar com certeza o quanto amo
E tanto que talvez demais reclamo
A fome que eu tenho de estar perto

Da amada que se esconde no incerto,
Na insabida paz de um certo tálamo
Que tanto, com insistência, eu já chamo
Pro meu desejo assim ficar coberto...

Porém, essa saudade que escorre
Talvez seja demais pra dor que hospede
Por mais que o pescador encharque a rede

E o peixe que ali jaz e ali corre
Não é capaz de saciar a sede
A sede do teu corpo, que não morre!


Francisco Settineri.

O SOM DO SILÊNCIO

.   Fim da tarde, o sol se esconde, E, por fim, a lava escorre Deste Etna que não morre, E que vai não sabe onde... . O fogo parece fronde. ...