quinta-feira, 31 de maio de 2012

Soneto Matrimonial



Agora que estamos juntos, reveja
A calma imaculada com que sonho
O momento em que ardem, no ar risonho,
Os mansos lábios da cor da cereja...

Agora que ninguém vê, despe a tua
Certeza, travestida de um tristonho
Restar neste mundo tão enfadonho
Inda que aí te ponhas sempre nua...

Agora que nós somos, juntos, mais
Que a noite, a névoa, o som e a bruma
E dançamos em todos os quintais

Leves, em nossos passos, como a pluma,
Beijemo-nos, em tons matrimoniais,
Em tensos lábios, mãos, boca e espuma!


Francisco Settineri.

sábado, 26 de maio de 2012

Soneto do Cativo


Olha para mim não com teus olhos de dona
Como se de outrem pudesse ser cativo,
Como se houvera, enfim, algum outro motivo,
Que não o de teu belo ser, que me apaixona...

Lembrança tua, eterna, nunca me abandona
E nunca serei de tuas mãos um fugitivo:
Jamais encontro, sequer, algum lenitivo
Pr’essa dor de amar que, furtiva, me impressiona!

Olha para mim com a alma que pressente
O quanto em versos tristes eu te comemoro,
E tanto que murcha, de tuas mãos ausente,

O coração que devotei a ti, que adoro.
Pois é só o que peço a teus olhos, mansamente,
Olha de novo para mim, sublime, imploro!

Francisco Settineri.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Soneto do Esposo


Gosto do teu jeito doce
De me chamar de Francisco
Por menos que me alvoroce
Quando em tuas ligas me arrisco...

Gosto do teu jeito doce
De um ai, quando te belisco,
Ao antever que antes fosse
Me deliciar no petisco!

Gosto também dessa tua
Ternura de eternamente
Andar, assim, sempre nua

E quase a deixar demente
O homem cuja alma é tua,
Quando o encaras de frente!

Francisco Settineri.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Soneto do Caravançarai



Eu sou poeta, e tenho em meu ofício
O leve fardo de cantar em verso
O amor sereno que há nesse universo
Sem que se faça dessas letras vício.

Por isso canto, e há nesse bulício
O suave toque que me tem converso;
Fico a teus pés, mas sem orgulho, imerso
Pois que senão seria um só suplício...

Mais do que um porto, ó minha donzela,
O teu seio é um caravançarai
Onde rebrilha a mais tranqüila estrela

Que mansa, quando a caravana vai,
Um doce brilho em teu olhar revela:
Renasce o amor e enfim a noite cai.


Francisco Settineri.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Soneto da Mansa Inquietude



Abate-se de dor o que era tão contente
E busca na lembrança as cores do arrebol,
Perdido na procela sem nenhum farol,
Sem ver em teus olhos a luz, nem de um poente...

Eu firo na guitarra as cordas mansamente,
Mas lembro do teu corpo envolto num lençol
E toda esta lembrança brilha como um Sol
Que chama a tua volta com a fome urgente!

Mas o que me atropela é o que bate no peito,
Navego em memórias de carinhos infindos
E busco-te de novo, ainda que sem jeito...

Se por ciúme nos tornamos desavindos,
Quero pra sempre ter teu belo corpo, eleito
E na insônia procuro os teus cabelos lindos...


Francisco Settineri.

sábado, 19 de maio de 2012

Claro Escuro




Ao luar, numa varanda
Ilumina-se o teu rosto
E é com mínima ciranda
Que de longe sinto o gosto...

Mas se ouço, de outra banda
O teu riso bem disposto
Minha altivez desanda,
Com meu brio assim exposto.

Contudo, se nos tomamos
A cantar claro dueto
Entre as sombras desses ramos

O olhar perdura quieto.
Entre as trevas nos amamos:
Explode em luz o soneto!


Francisco Settineri.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Soneto da Ternura Infante




Perdoa-me se só lembro o beijo rubro
Guardado, ileso, na estante da memória,
Pois foi ele que sagrou a vera glória
De uma grata noite no final de outubro!

Pois se só de rosas hoje enfim te cubro,
É porque tu refizeste toda a história
Dos momentos em que estive na miséria
E do amor que a cada dia em ti descubro...

No peito calou o grito lancinante,
Mas não deu lugar à mansa calmaria.
Em teus soberbos olhos eu bebo, amante

E livro dos meus sonhos toda agonia:
Nos grandes embates de ternura infante
Renova-se o lindo cais desta alegria!


Francisco Settineri.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Soneto do Amor Desatado




Se a noite traz um frio que é distante,
Escuto da saudade a sinfonia
E sinto pena mesmo da alegria
Do coração que um dia foi radiante...

Pois se no amor me mantenho vibrante,
Desfilo na memória a galeria
Porém claudica a minha ousadia
E a cada signo teu fico ofegante.

Tentei levar o amor para o olvido
E o nada inspirou essa cantata.
Tomado num orgulho desabrido,

Por fim eu sucumbi à fúria inata.
Tu tens, enfim, meu lábio emudecido,
Tomado, em cada nó que se desata!


Francisco Settineri.