domingo, 17 de novembro de 2013

Náufragos



De águas tão revoltas de teus olhos
Saídas vaporosas das vertentes
Não há no céu estrelas que freqüentes
Que evitem os perigos dos abrolhos...

Fragata que se escapa ao que recolho
Do náufrago que jaz à minha frente
E o resto que flutua impertinente
Inútil traz no bojo o seu ferrolho!

Encontra-se a loucura dos teus fados
Na pérola perdida ao preamar
E assim veloz no barco naufragado

Em liras a sereia a solfejar
No mesmo andar audaz encapelado
Teu brilho azteca assim se faz brilhar!


Francisco Settineri.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Xadrez sem Estrelas



Cedo o medo sela a cela
onde a curta e parca mesa
já despreza o livro que ali jaz.
Onde não há luz, já não há paz.
Um olhar, um outro olhar,
e o par de lembranças a doçura do lar
a grade o almoço o espelho o jantar
a tristeza lenta te abocanha, meu amigo
bulício da vida no lá-fora que se põe distante
e inúteis pensamentos em sua apagada cor.
mas não há na alma cansada o ressentimento
nessa maldita praga do vai-não-vai
- em que pese a rude e amarga dor -
nem no rosto do teu pai.


Francisco Settineri.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Bálsamo




No albor dessa distância dos mares
Tão sensitivo, feito de esperança e a um tempo temor
O poeta augura o pó do caminho das estrelas
Via láctea como um leito linho esplendor
Que se demora austero como a passagem das horas.

Porque ninguém te amará como eu, sereno nas madrugadas frias
E ouvirá as sereias e cobiçará agarrar-se a teus cabelos
No desespero assombrado da noite grande e coalhada de orvalho

Teus olhos brilham como esferas líquidas e solitárias.
Elas nunca, nunca, cicatrizam,
Em seu negrume brilhante, armado de dor.

Mas minhas mãos, em teu silêncio, farão com que murchem os espinhos dos cardos
Que conheci bem antes de construirmos de mãos dadas o ansiado ninho.

E haverá aves tétricas gritando, tenebrosos pesadelos no mar,
Ilhas mortas de perigos horrendos e rochas sem vida
Até que venham nítidas e flamantes as cores da manhã.


Francisco Settineri

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Pandora





Pela amarga terra o deus mandou Pandora

Atroz castigo ao que o fogo lhe roubara

Ornada de flores que Eros talhara

Mais do que bela ao claro olhar da aurora...



Tecidos de seda que a mão pouco aflora

Que tudo aprendeu do que Atena ensinara

Ao fraco o presente radiante foi cara

E o mal que livrou expandiu mundo afora!





Mas Zeus não julgou o castigo bastante

Correntes na pedra furioso o prendeu

E antes do herói o salvar ao instante



O voo da águia constante o rendeu:

Faminta paciência no brilho cortante

Do ventre que abrira ao titã Prometeu!


Francisco Settineri.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

No teu silêncio, as luzes



Porque tão tarde, meu amor, bates à porta?
Que som sem eco paralisa ineptas as dores da alma?
Que mãos de fêmea fecham as janelas, na alegria farta?
Que som terá a voz nascente nos ouvidos, na falta?
O carinho é dádiva em um mundo sem dragões.
Vieram monstros, vieram soldados a me prender o corpo. 
Mas nada nesta praia me atira aos escolhos e ao campo das solidões
Porque tenho em mim tuas mãos, tua pele, o fruto, o carpo! 
E a lembrança lancinante das madrugadas primitivas e felizes...
E a cor de todas as primaveras, em seus cerúleos matizes 
Onde nenhuma dor a mais, por mais que fira, me alcança. 
Contigo, enfim, longe da lâmina, aguda, da lança!

Francisco Settineri.

domingo, 10 de novembro de 2013

Olhos Negros





O poeta lavra a letra, ardente herói

Afasta a lava que te corrói, fervente,

Repara, pois, com teu olho que não mente

O quanto o amor é doce e como dói.



Se versos tristes que te disse a bruma rói

Ela os mastiga calma com seu fero dente

Como viver e ter a dura vida à frente,

Se o soluço cresce e a vida se destrói!



Se a vida um dia te pareceu vazia

Afasto a lava que te corrói, fervente

Só quero a tua mão pura, que sente

O amor livre de tédio e de melancolia.


Francisco Settineri

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Um barco se aproxima em cais de pedra




Um barco se aproxima em cais de pedra
Convida a viajar ao Aqueronte
Gentil, cortês, conduz a nau Caronte
Em meio ao desespero que aqui medra.

Não sabes mais se a sombra que ora chega
É o nada a desfilar na tua frente
Da treva que te envolve o abraço quente,
Mortalha que te cai em tensa entrega!

Destino ao qual somente o herói escapa
No resgatar audaz do inferno a Dama
E o deus do mundo odiento a si reclama
A parte que lhe cabe, obscuro mapa...

E cais a delirar no humor sombrio
Das águas a vencer pelo barqueiro
E nada ao céu impede o ardor primeiro
Que firme impele ao vento o rosto frio!


Francisco Settineri.

O SOM DO SILÊNCIO

.   Fim da tarde, o sol se esconde, E, por fim, a lava escorre Deste Etna que não morre, E que vai não sabe onde... . O fogo parece fronde. ...