sábado, 31 de maio de 2014

Aliança



O amor imortal que um dia desejamos
Foi o possível naquelas circunstâncias
Cheio de brumas foi, brisas e constâncias
Coberto de flores, camélias e ramos...

Pois o grande amor foi este que inventamos
Ainda que subjugado nas distâncias
Nunca sofreu por uma deselegância
E jamais precisou de qualquer reclamo.

Vem, pois, minha amada, e abraça-me tão forte,
Teus braços percam tuas últimas forças,
O amor encontrou seu derradeiro norte.

E a delícia deste encontro se contorça
E até que um dia nos separe a morte
Dize, amada, que a morte se retorça!

Francisco Settineri.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Joana Camila



Quando ela nasceu um anjo disse: Joana
Mas o bravo deus pagão proferiu: Camila
E os homens todos já se colocaram em fila
Ao olhar seus olhos negros de soberana!

E um vento suave balançava as canas
Adoçando ainda as admiradas pupilas
Daqueles todos feitos por Deus com argila
No hipnotismo dos cabelos da serrana!

Cabelos claros e macios, redondo rosto
Nos ares um belo cheiro de camomila
O bravo olhar e tão serenamente exposto

Boca séria mas cuja doçura destila
Das uvas da boa estação o mosto e o gosto
Em uma simples palavra: Joana Camila!



Francisco Settineri.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Tristeza



Pois soam as horas, e a noite lentamente
Deixa-me a recordação em tensa vigília
Não sei se perscruto ou olha-me a mobília
De qualquer modo a dor é sempre pungente.

Pingentes dos cristais em seu brilho aparente,
A foto do meu avô vindo da Sicília
Muda em toda lembrança a necessária homília
Que nada mais diz e me deixa indiferente!

Pois rola pela plebe a algaravia inculta
E tudo me parece mera hipocrisia
Uma alegria alheia que me parece, insulta

O doce abraço terno que eu ganhei um dia
E rola num lamento a lágrima insepulta
Que prolonga ao máximo a tremenda agonia!



Francisco Settineri.

domingo, 18 de maio de 2014

Haiti



Pode ter o nome simples de Maria
A esperar seu homem vindo de outra terra
Que chamam Missão de Paz, mas é de guerra
E para isso é que mandam a infantaria!

Já nada importa o motivo que seria
Mulheres, velhos e crianças enterra
Medo só das armas que o inimigo encerra,
Pois matar os negros é sua ortografia!

Terninar a vida, agora, justo agora
Retalhados os gritos dos que inda chamam
Por um pouco de paz, e sem mais demora,

Mas insepulta a lágrima, assim chora,
Pois feito uma lâmina que no mais devora
São os seus pedaços que agora te amam...

Francisco Settineri.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Mácula



Sinto tanto a dor de um passado separado
Do tempo em que te conheci inda menino
Mesmo das ruas eu ainda lembro os sinos
E das tardes em que andamos de braços dados!

E o sentimento por andarmos apartados
Pois o amor que nos unia era cristalino
Deixava em mim a mágoa do que era tão fino
E a indelével marca de um cristal trincado!

Com as mãos no peito e adormecendo no caminho
Olhando as flores que contente tu me deras
Senti o leve toque, ao me julgar sozinho

E mesmo hesitando, sem saber das feras
Dessa saudade, que se escondem no caminho
Te deste a mim e sem saber o que tu eras...

Francisco Settineri.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Rosa Púrpura



No vaso de cristal encabulou-se
Bebia o teu olhar como eu bebia
Na mesma tarde que tecia o ocaso
A flor que tu me deste purpurou-se...

Tocavam sustenidos os ardores
No corpo enregelado, a noite fria
E mesmo assim não foi nada vazia,
Os gritos arrancados dos amores!

Tu foste à madrugada na janela
Olhar o céu da estrela vespertina
Mas nem sequer notaste as flores
Sequer notaste o que desabrochavam

Pariam nas suas pétalas rebento
Pois que hoje, em lamento tão sublime
Do tempo em que por ti fui mais sedento
Eu guardo em minha memória, engalanado!


Francisco Settineri.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Reencontro



Eu sonho tanta coisa que não pude
Viver sempre a teu lado e só contigo
Do tempo em que eu fui somente amigo
Embora se notasse amiúde

O quanto viver longe era rude
E o meu ardente olhar era mendigo,
Decerto que viviam num jazigo
Meus versos para ti num ataúde!

De mim a ti o amor sempre foi dado,
Memória que se nutre da energia
Pois nada para sempre é olvidado

Passeio imaginado na ilha grega
O toque, o infortúnio, a alegria
O amor sempre sereno e a nau que chega...

Francisco Settineri.

domingo, 11 de maio de 2014

Cores



São brancas, vermelhas, roxas e amarelas
Deixando o meu sonho assim debruado
O olhar sempre vivo e o lábio calado
Na dança dos tons que emana só delas...

São mansas, são fortes, são sempre singelas
E verdes os campos, as matas e o prado
Procuro um nome e fico calado
Argênteas ou foscas, mas são sempre belas!

Pois todas as cores, assim de repente
Se insurgem no baile que é nossa vida
Preclaras nuanças, violetas cumpridas
Em ordem unida por volta da gente

Pois hoje eu vou dizer todas as palavras
Do início do balé até a sua coda
Preparei um buquê em forma de roda
Com esse arado de sonho azul com que lavras!


Francisco Settineri.

sábado, 10 de maio de 2014

Coxas



Quando Deus inventou a mulher
inventou também a coxa.
Mas não a tirou de uma costela:
A coxa veio do nada,
Do Caos da era do Gênesis:
Deus criou a coxa,
E viu que era boa!

E a inventou em português,
antes que alguém a traduzisse
ao hebraico.
(Em que língua Deus falou com Adão?)
Nada mais heroicamente brasileiro
do que uma coxa.

Nada mais adolescente do que perscrutar escadas
Nada mais falsamente modesto do que a moça
puxar as saias, num gesto rápido
e envergonhado
para que elas não apareçam tanto.

Tento encontrar uma coisa que o prove
Mas mesmo que o decassílabo invada
A rara placidez do meu verso livre,
Volto a Deus, em sua obra, em sua ira.

Claro está que não as fez nas coxas
Teve um trabalho infernal
Para dotá-las de uma forma
e de um nome
Soletrado tantas vezes
por um Drummond encabulado.

Que deixe os jovens atormentados
E as moças cheias da certeza
de que mantém um segredo do Universo!
Coxas grossas, mãos macias e pitangas,
Meninos
Faceiros como lambaris na sanga!


Francisco Settineri.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Dionisíacos



Eu canto em liras, flautas e tambores
E os sátiros acompanham, viris
Na boca, um sabor que lembra anis
E a noite só se enche mais de amores...

Rodeado de instrumentos e de flores
Recrio o mundo e nele ponho sóis
E a vida já se enche de esponsais;
Nas vozes, o encanto com as cores!

Eu lanço a minha voz ao infinito
Com a festa que inicia ao ocaso
Recrio o mundo ao soletrar o mito

E nada do que ocorre é por acaso:
O som desses corais é tão bonito
Dançamos de alegria em cada caso!

Francisco Settineri.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Audiência



Cumula-se a tristeza em minha alma
De tanto que demandam um pedaço
De mim, que só trabalho e às vezes traço
Uns versos amorosos e com calma!

Talvez queiram de mim mais que dinheiro,
Quem sabe a minha verve os incomoda
Poeta que nem sabe estar na moda
Não quer saber de inúteis companheiros!

Quem sabe me abandonem neste inverno
Esqueçam deste bardo que só canta,
E quer livrar-se logo deste inferno

Que dói na alma e aperta esta garganta
Se depender da luz do Padre Eterno
Vão ter de enfrentar a fúria santa!


Francisco Settineri.

O doce amor que a ti eu devotei




Que o doce amor que a ti eu devotei
Embora tenha sido atormentado
Talvez não tenha sido bom soldado
Mas impeliu-me à guerra como lei!

Brilhou-me com seu estro peregrino
Insurge-se a abalar-se na fraqueza
Recobra-se das cinzas à nobreza
E canta em alvo leito um belo hino!

Mas vejam! Vejam bem! Eu mesmo estive!
Estive a ultrapassar tantas fronteiras
E fui a navegar a noite inteira
Um mastro a naufragar até o Estige!

Pra ver de tanto amor que mais importa
Se a boca que me beija em seu sudário
Se o toque que faltou em meu diário
Se a mão que não bateu em minha porta.

Anima-se nas sombras a canalha! -
Eu sempre quis de ti ser grande rei 
Que o doce amor que eu sempre devotei
Te sirva, nesta hora, de mortalha!


Francisco Settineri.

A Praça



A moça que me chega é puro encanto
Mas não passeia assim despercebida
Ali a discrição se deu guarida
Pra quem olhar com calma é puro espanto!

Arrisco recebê-la com sorriso
Que arranca com seu lábio encantado
Deixando assim de modo registrado
A luz de sua alma e o andar preciso!

E todos notarão que nesse instante
E eu mostro a todo mundo nesta praça
O brilho de uma pedra que é sem jaça
De amor cheio de graça e o sol brilhante!

E as flores que eu não tenho voarão
Pras suas mãos num gesto desconfiado
Nervosa diante do perfume dado,
Das pétalas que oferece um varão...


Francisco Settineri.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Pipas ao Vento



Lancei mais de uma pipa e elas foram ao céu
As moças nem notaram o que estavam vendo
As pernas bambearam de amor tremendo
Eu soube que na Arábia elas usam véu...

Mamãe zelosa preparou-me pão com mel
Eu fui até a esquina e comprei picolé
Até os catorze anos inda tinha fé
Depois ganhei o mundo e ele virou fel!

Olhei bela morena e o minuano canta
Rezei para os anjinhos pra tomar partido
Eu quis que um deles ficasse condoído
Quem sabe, por acaso, um pano ele levanta!

E a moça envergonhada então talvez me note
E lance com vontade um grito de brabeza,
- Audácia deste vento a retirar nobreza
Malícia de um mau anjo que lhe deu um trote!


Francisco Settineri.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Insânia



Eu faço o meu soneto calmamente
Não escondo minha cabeça de avestruz
Degusto uma tigela de cuscuz
Pra não ficar fraquinho e doente.

Mas conto os versos laboriosamente
E saio na avenida de capuz
As letras eu as cato à meia-luz
E nada me assoberba, eu sou prudente!

Nas ruas eu já vejo sempre homens
E anoto em meu bloco um sumário
Eu tinha um vizinho lobisomem,

Trabalho e quase não vejo salário
Pois quando vão aos céus pesadas nuvens
Os vices quase versam ao contrário...


Francisco Settineri.