sábado, 30 de junho de 2012

Arlequim




Um sorriso,
A rosa murcha
caída entre suas mãos.

A lembrança daquilo que foi festa
e se perdeu.

Um rosto
uma miragem
a Rainha de Sabá...

O confeti, agora, é redondo espanto.
E eu canto a tua roupa xadrez
de palhaço!


Francisco Settineri.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Soneto da Bela Indiferença



Desiste de uma vez do meu desejo
Estanca agora a roda do suplício,
Silêncio que se troca por silêncio
Melhor assim, talvez por puro pejo...

Redobra essa distância que ora vejo
Entre o que achava então um bom auspício
E agora não enxergo senão vício,
A lira desse amor não mais solfejo.

Não fosse a vã memória de uma cama
Da qual, de uma vez só, eis-nos partidos
Mais nada eu já não disse àquela Dama

E nada entrou na paz dos meus ouvidos.
Emudecido som, augusto drama,
Sepulcro audaz da rede dos sentidos!


Francisco Settineri.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Cavaleiro Solitário


Consorte da planura solitária,
Cruzado de uma fúria inclemente
Não via nada mais à sua frente
Que a dor de ser, tamanha, e a sede vária...

Mas eis que a vida se mostrou contrária
Ao frio espasmo da razão demente
Não vi que estavas por demais presente
Nas sendas do meu canto, multifária!

Eu monto novamente o Rocinante,
Invento um passo e o tiro deste atraso;
O brilho do teu olho incandescente

Devolve a cor ao pé do meu parnaso.
Alado por teu vulto fascinante
Explode em mim ardor, eis findo o caso...


Francisco Settineri.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Vitral




Eu bebo ao pé da fonte cristalina
De uns olhos claros no espelho do céu,
Pois ébrio a pressentir sabor do mel
Que a indústria dos teus lábios me insemina...

Cantata de emoção na visão fina
Das faces encobertas por um véu
Que exclamam, a sorrir, que sou um réu
Pois tudo que ora falo me incrimina!

Resplende a auriflama na inteireza
De um verso que transborda em boa hora
Que canta, a balbuciar a tua leveza,

Avesso de um silêncio que se explora
E avança, a palpitar só de nobreza:
Afeito à muda espera, se demora!


Francisco Settineri.

domingo, 24 de junho de 2012

Soneto de Ficar a teu Lado



É lindo ver no teu olhar nascente
A flor de um reviver e sua magia
Por mais que tu tivesses por vazia
A vida que passava pela frente...

Eu trouxe as cores todas do poente
E tudo mais do que no céu havia
E a noite, que era dor e chuva fria
Contigo do meu lado ficou quente.

O canto de alegria que me aflora
É gesto que rebrota, nunca imposto
E mesmo se a saudade em vão devora

Afasto do meu mundo esse desgosto,
O meu verso febril inda vigora,
Invade-me a brancura do teu rosto!


Francisco Settineri.

sábado, 23 de junho de 2012

Soneto do Absinto



Um verso que carece de atitude
Não deve ser escrito, a vida mata
Quem quer que o faça assim, à pena ingrata
E não entregue a alma a essa virtude!

Se eu tive em solidão a vida rude
Explica a fome assim, e a insensata
Paixão que não freada se desata
Porque eu te amei assim, sempre e amiúde!

Nas mãos tão delicadas de Florbela
A lira que ressurge, nunca extinto
O beijo que calado guardou nela

E o verso que não disse, e agora sinto...
Eu pinto em arrebóis a mansa tela
E a bela estrela invade o meu recinto!


Francisco Settineri.