domingo, 30 de outubro de 2011

Beija-Flor



Bela flor, mais desejada
Pelos ramos, em adejo
És Rainha, se te vejo
Entre almas, lisonjeada.

Tão airosa, invejada
Já nas pétalas, lampejo,
Vai num salmo de festejo,
Por amor, tão descuidada,

Juntar rimas de alegria!
E o veloz pássaro andejo
Como em jatos proferia

As lambidas de voejo:
Asas lépidas batia,
Era néctar, bico e beijo.


Francisco Settineri.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Soneto Arrependido



Amo-te tanto, e de um amor tão fundo
Que mais encanta, e sempre com vontade,
E de um amor que é bem maior que o mundo,
Vou te querer, com mais intensidade.

Amo-te grande, feito um mar profundo,
E meu amor é sempre sem maldade,
Em bem-querer mostra-se num segundo,
E eu vou além, numa simplicidade.

Mas se na vida me tornei errante
Nesta mantenho, impenitente, mudo,
Em meu compasso, nau itinerante,

Mapas de ti, que em cada dia estudo,
Pra nunca ser, senão o teu amante
Magoado por não ter-te amado em tudo...


Francisco Settineri.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Carpe Diem



Deitados, entre flores, a sorrir
Era campo, era gorjeio, era maio.
E o sol, a declinar, em um desmaio
Era bucólica nota a florir...

Tu trazias uma rosa a se abrir,
Mas eu, cândido, por pouco não caio
No encanto do momento de um ensaio,
Muito lento e delicioso despir.

E foi quando estirados nessa relva
Que se travou divina sinfonia,
Abraços e carinhos numa selva

A disputar qual maior valentia,
Na boa brincadeira, sem ressalva,
De bravo amor, gritando em ventania.


Francisco Settineri.

Retrato



Encontro tanta paz em tua nobreza,
Na altaneira seiva do teu viço,
Em teu amor, a grande fortaleza,
E um tom de voz que é, antes, o feitiço.

Mas nunca falta porte à tua beleza,
E ao olhar, que se acha a seu serviço,
Captura dos sentidos, na pureza
Guardada só por ti, em zelo castiço.

Mas, veja! Ao claro olhar nada é postiço
E eu flagro nua, em toda a inteireza,
A minúcia que se furta ao noviço:

O esplendoroso vigor da certeza,
Calculado baixar d’olhos, submisso,
E um doce veneno, servido à mesa!



Francisco Settineri.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ramalhete




Eu vejo a luz, na cor do teu silêncio,
E o ar felino do corpo moreno,
Se me demoro, em espera, sereno,
É que repouso, no melhor presságio.

Foi na sensação do grande prodígio
De um leve roçar, que foi tão ameno,
Embriaguei-me com o teu veneno
E em minhas mãos, recolho o teu vestígio.

Fogo de amor, que franco me consome,
E que me exalta, na exata medida,
Mas não sacia toda a minha fome,

Que estará por ti, sempre não cumprida,
A brincar co'as sílabas do teu nome,
Que chega a ti, como uma margarida.


Francisco Settineri.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Viagem



Já sinto a falta dessa tua imagem
E do abandono da tua voz tão pura,
Do que prometes, com tanta ternura,
Ao que me rendo, com toda a coragem.

Porque se eu tive o coração selvagem
E cantei versos que a lira murmura
Hoje não quero viver a tortura
De esperar tanto por essa viagem.

Meu devaneio voa em cada vento
E em cada quadra ponho o meu engenho,
Pois vem de ti todo o meu sentimento.

Se nessas plagas pouco me detenho,
Quero partir, e a cada pensamento
Mantenho em flor o céu de amor que tenho.


Francisco Settineri.

Flor Morena



Foi no verso, foi na pena,
Foi no meio do caminho,
Encantei essa pequena
Que só quer me dar carinho.

Eu colhi linda verbena,
Que chegou já de mansinho,
Com altivez de açucena,
Mudou da água pro vinho.

O tédio fora vizinho
Mas eu não saí de cena,
No girar desse moinho

Fui parar na paz serena,
A beber doce carinho
Nos lábios dessa morena.
 
Francisco Settineri.

domingo, 23 de outubro de 2011

Inesquecível





Em pétalas de cravo e margarida,
Quero lembrar-te como tatuagem,
Sentir o teu perfume, numa aragem
Que invade o meu olfato, impressentida.

Pois quando te senti, quase perdida, 
Por pouco, não perdi tua miragem,
Mas vi que tu eras minha, noutra margem.

Na superfície do sonho, estendida,
Memória de um prazer, em raro drama,
Que não quer se mostrar despercebida.

Moraram nela as dores de quem ama,
Cabe toda a ventura de uma vida,
Leva em si timbres da paz, e na alma,
De amor, dorme uma carta, inesquecida.


Francisco Settineri.

Reencontro de Ricardo



Abraço firme, é o que convém, amigo,
Na grata sensação de estar contigo.
E Tan entoa versos em pintura
De antiga dor, exata partitura!

Francisco Settineri.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Dama da Noite



Às minhas mãos, o teu peito se inflama,
Transporta-me do sonho até a renúncia,
Faz da tua pele a minha querência,
Nas curvas e volúpias desta cama.

Se, entre cetins, teu jeito reclama,
Eu te tomo, de vez, com toda a urgência,
A me deixar em brasa, e sem decência,
O corpo ardente, audaz, em lança-chama.

Não pode ser deixado pra depois
O belo grito agudo dessa flama.
Invado a paz, em mansos arrebóis

E logo ponho em festa a minha dama:
Meu corpo teso em carne de nós dois
Despudoradamente se engalana.

Francisco Settineri.

Doce Tirana



Eu quis da vera paz ser o consorte
E ser dos olhos teus a alegria,
Forjaste para mim o passaporte,
Teus lábios impuseram tirania.

Eu subo ao apogeu com braço forte,
Mas calas, vendo a minha ousadia,
E um nada, oriundo do teu porte,
Sublime, submete-me à tua magia.

Andava pela vida, e era tua
A luz que me faltava, em descaminho,
Achava que era grande, e era nua

Essa ingrata ilusão de ser sozinho.
Sereno, de mãos dadas, pela rua
Eu quero andar contigo, no caminho.

 Francisco Settineri.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Aquarela



Chegaste mansa em mim, insinuada tela,
Que sequer teve,  jamais, a cor indevida.
Recebe em versos a homenagem devida,
Vem nua para mim, aberta cidadela!

Cúmplices as tardes de mãos dadas, a vela
Que carrega a nau pelos mares desta vida,
Era pouca a esperança de vê-la garrida,
Mas tu me vens com ar e graça de uma estrela.

Tivera antes, na vida, dita ou desdita,
Não me importaria de remover castelos.
Assim que calmo te espero, moça bonita,

Encantado pela visão de teus cabelos,
Na véspera de uma paixão que tenho, escrita,
E no antegozo, em graça, de teus lábios belos.

Francisco Settineri.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Soneto Soturno



Eu pinto o que foi sonho em aquarela
E vejo a luz fugir do horizonte
Oferto o olhar tão simples que foi dela
E apaga-se toda a calma da fronte.

Foi Deus que me afastou desta estrela,
Me fez beber da água dessa fonte
Que um dia foi só fresca e era bela
E hoje, muito insípida e bifronte.

É sempre no passado essa querela,
Que trai da paz perdida o passo errante
E lenta uma agonia que martela,

Num céu que foi diverso, fulgurante.
Mas nunca há vez bastante para tê-la,
Estou sempre a perder-te, alma distante.


Francisco Settineri